Os excessos geram excessos

A jornalista do Correio da Manhã, Tânia Laranjo, que se distingue por praticar um tipo de jornalismo de evidente parcialidade e falta de rigor relativamente a José Sócrates, foi hoje alvo de uma inaceitável atitude do advogado João Araújo, que perante a insistência habitual da jornalista em obter resposta às suas quase sempre impertinentes perguntas, lhe disse desabridamente que “desamparasse a loja” e “a senhora devia tomar mais banho porque cheira mal”.

É evidente que o advogado excedeu os limites do razoável, mesmo tratando-se de uma jornalista que deturpa, toma partido e se mostra incapaz de ultrapassar as suas convicções e inclinações pessoais em tudo o que respeite a José Sócrates.

O espectáculo degradante de ver magotes de jornalistas atrás dos advogados, enredando-os e enredando-se em microfones e câmaras de televisão, só podia dar nisto. João Araújo é um advogado diferente de outros advogados, fala com os jornalistas quando os outros se calam e preferem surgir nas televisões como conselheiros, e alguns se tornam comentadores avençados ao mesmo tempo que exercem  advocacia em casos mediáticos.

João Araíjo é um advogado sem a pompa habitual da classe. Descontraído e informal despertou a princípio a simpatia  dos jornalistas, que fizeram dele uma vedeta de televisão. A sua presença nos telejornais ou em entrevistas em horário nobre foi e é disputada pelas televisões.

Mas depressa se verificou que os jornalistas não reagiam bem à maneira como ele os desarmava com as suas respostas inesperadas e desconcertantes.  Poucos são capazes de captar-lhe o registo e apanhar-lhe o tom e a substância do que diz e do que esconde.

Hoje, João Araújo excedeu-se com Tânia Laranjo. Foi pena, porque deveria ter sido capaz de enfrentar com bonomia  a insistência e a insolência das suas perguntas, deixando aos leitores e aos telespectadores a conclusão sobre o comportamento da jornalista e a credibilidade daquele tipo de jornalismo.

Este processo vai ainda ter muitos episódios para os quais é necessário cabeça fria de jornalistas, advogados, juízes, procuradores, políticos (do governo e da oposição) e mesmo de todos nós, cidadãos comuns.

O ódio a Sócrates não é bom conselheiro, muito menos quando parte de jornalistas. Mas se eles quiserem exibi-lo, os cidadãos serão os melhores  juízes de quem o usa disfarçado de jornalismo.

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11 respostas a Os excessos geram excessos

  1. Cara Maria, compreendo os seus argumentos e até acho que a expressão “cheirar mal” foi urilizada em sentido figurado, muitas vezes para dizer que se está farto de alguma coisa. Mas era preeferível que João Araújo a tivesse evitado porque recairia sempre sobre ele a acusação de que insultou uma jornalista, acirrando ainda mais os ódios contra Sócrates.

  2. Maria diz:

    Cara Estrela Serrano

    Imagine-se advogada, juíza ou outra coisa qualquer ligada a um caso mediático. Imagine-se cansada depois de trabalhar até a exaustão, imagine-se a sair de um tribunal, de uma fábrica ou outra coisa qualquer.Imagine que vai na rua ansiosa por chegar a casa, tomar um café, um bolinho, um banho quente, receber um mimo da cara metade. Imagine agora que vai a caminhar e é bombardeada de todos os lados, travada, obrigada a levar com um microfone na cara, até mesmo quando está a falar ao telemóvel. Imaginou? não julgue ainda João Araújo sem sentir a mesma pressão. João Araújo,saído das portas do tribunal é um cidadão comum com direito a responder a quem quiser, da forma que quiser para mais quando é obviamente provocado pelos jornalistas do CM que conhecendo já o seu desprezo ao grupo Cofina, fazem tudo para ter pretexto para ter capa de notícia para mais uma semana. Não duvide. E quanto ao modo como João Araújo o disse, cada um interpretou como quis.

    e para finalizar, a Tânia Laranjo cheira mesmo mal, todo o CM cheira mal,o que se há de fazer?
    Recomendo-lhes não um banho, mas uma purificação total nos lagos do Alasca.

  3. Domingos Carvalho diz:

    Sem que, por um segundo sequer, pense que da sua parte a imparcialidade não é total, ela é, aliás, evidente, não posso deixar de perguntar onde está a imparcialidade do CM? O que escreve é mentira?

  4. llopes49 diz:

    A mulher de César não pode só ser séria,tem de parecer também.

  5. Sarah Adamopoulos diz:

    É intolerável, a representação (agora já costumeira, ou quase) que a sociedade faz do ofício do jornalista. E as tevês têm muitas culpas nesse cartório, tal como todos os que participaram na tabloidização do jornalismo.

  6. Aqui, a isenção face a Sócrates também parece uma miragem…

  7. Fernanda Gomes diz:

    Exactamente, Estrela Serrano. Subscrevo .

  8. Pedro diz:

    Parcialidade e falta de rigor está estampada nesta noticia. O povo português já fez o seu juízo em relação a socrates. Esperemos que a justiça esteja num patamar mais alto que aquela que foi feita na altura das escutas, por Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento.

  9. E pur si muove! 👃

  10. ignatz diz:

    o jornalismo do correio da manhã cheira mal e se o araújo errou foi não ter dado banho à laranja. acusar excessos contra esse pasquim e essa coisa cacarejante de microfone na mão é uma redundância. para mim cortou 2 orelhas mais um rabo e só não saiu em ombros por causa da hipócrisia corporativa de um sindicato que permite o abandalhamento do jornalismo.

  11. Paulo Rato diz:

    João Araújo excedeu-se só no modo como expressou uma avaliação correcta. Isto é, só na forma, que não no conteúdo. Deveria ter escolhido melhor as palavras para dizer exactamente o mesmo.
    Creio que se assiste, entre os profissionais acreditados como jornalistas, a várias confusões sobre o direito à informação, os “seus direitos” (deles) e os “direitos do público” (o que é isso, a propósito, neste contexto?…). É o caso da violação do segredo de justiça, em que parece haver um consenso corporativo para considerar inocente o jornalista, cabendo a culpa por inteiro à “fonte”, como se o executor de um homicídio pudesse desculpar-se com o argumento de que a arma do crime lhe fora fornecida por outrém.
    Quanto a este caso, não me parece que um cidadão seja obrigado a responder a perguntas de uma qualquer criatura só porque esta exibe uma carteira de jornalista, enquanto revela, pelo seu comportamento, que não o é. E esse direito deveria ser defendido pela lei e, já agora, por quem outorga a dita carteira. Se alguém pretende afastar do seu convívio um pretenso jornalista (o hábito não faz o monge…), como esta empregada do CM, deveria estudar-se a maneira de o poder fazer, sem que tal pusesse em risco a liberdade de informação que, aliás, semelhantes trogloditas encarteirados insultam. Se a Lei não permite apresentar queixa por assédio ou cousa parecida, em casos como este, dever-se-ia pensar em adaptá-la à realidade.
    Tenho plena e preocupada consciência de que é um tema muito sensível. A liberdade de informação tem de ser defendida, sem ambiguidades nem “mas”, como aqueles que espirraram do caso “Charlie Hebdo”. No entanto, em qualquer âmbito, o abuso de um direito tem de ser delimitado e punido. Entendo como abuso o que se exerce sobre um indivíduo concreto, real – nomeadamente restringindo a sua própria liberdade de decisão e escolha, como acontece por parte do CM em relação a João Araújo -, não o que refira a uma ideia, um conceito, uma figura histórica ou mitológica. Sendo a minha análise, naturalmente, discutível e susceptível de aperfeiçoamento ou, até, alteração, através de contributos mais informados.
    Um advogado não desempenha nenhum cargo público (age no espaço público, o que é diferente) que o obrigue a responder a tudo o que se apresente como “jornalista”. E, quando a criatura inquisidora provoca náuseas, nem sempre é possível conservar a “bonomia”. Não sei o que faria, se estivesse no lugar de João Araújo. Não creio, sequer, que a minha veia sarcástica tivesse algum efeito, sendo certo que esta gentalha, além de não perceber construções frásicas um pouco mais complexas, é imune a tudo, pois não tem carácter, nem honra, nem vergonha. Como se pode, então, postular que a paciência seja inesgotável só de um lado, mesmo que esse seja o lado da inteligência, da cultura, do carácter? Estas qualidades podem ajudar a um incremento da condescendência, mas não determinam a sua infinitude, tanto mais que é conhecida a agressividade instintiva destes especímenes perguntantes.
    Eis um tema complexo, que penso não poder ficar à margem de uma reflexão colectiva. Antes que o impulso de uma situação mais grave gere falsas soluções, apressadas, emotivas e inadequadas.

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