Presidenciais: A perversidade do sistema político-mediático não permite a renovação do pessoal político

Sala das Bicas

O debate em curso sobre as candidaturas presidenciais é revelador da promiscuidade político-mediática instalada em Portugal há muitos anos. Senão vejamos:

O ex-reitor Sampaio da Nóvoa, manifestou a sua disponibilidade para uma candidatura à Presidência da República numa entrevista ao Jornal de Notícias publicada este sábado. Na véspera, dia do funeral de Manuel de Oliveira, a TVI abriu o seu  principal bloco informativo com a notícia de que Sampaio de Nóvoa seria o candidato do Partido Socialista, considerando-o uma “escolha de recurso”, assim desvalorizando quer o candidato quer quem o venha a apoiar.

No mesmo sentido, outros jornalistas e alegados candidatos a Belém, comentam que Sampaio da Nóvoa não é conhecido do País, justificando assim  o anúncio adiantado da sua candidatura face a candidaturas de  “conhecidos” como Marcelo Rebelo de Sousa e Santana Lopes, já que, dizem, esses podem esperar até Outubro para fazer o anúncio.

Pode perceber-se a estratégia dos candidatos “conhecidos” mas ela revela também a incapacidade de o jornalismo contribuir para o esclarecimento dos cidadãos e para a renovação da política e dos políticos, os quais  os próprios jornalistas não se cansam de considerar como gastos e desacreditados.

Marcelo Rebelo de Sousa é o pré-candidato com maior visibilidade no país, graças ao espaço de comentário, em horário nobre, que detém  há anos alternadamente na TVI e na RTP. Se Marcelo anunciasse já a sua candidatura, a sua continuidade como comentador da TVI seria certamente questionada e embora a TVI pudesse querer mantê-lo no écran, graças às elevadas audiências que consegue, a situação acabaria por tornar-se escandalosa e insustentável, podendo voltar-se contra o próprio Marcelo.

Santana Lopes está quase na mesma situação, embora a sua visibilidade televisiva seja mais limitada, visto os seus espaços de opinião  se situarem  nos canais do cabo. Contudo, a sua presença nos media depende apenas de ele querer ou não ser notícia, dado que não lhe faltam microfones prontos a captar-lhe a palavra.

Sampaio da Nóvoa é, de entre os nomes apontados como possíveis candidatos presidenciais, o mais ausente em termos de visibilidade mediática. Não é comentador residente de nenhum canal de televisão nem tem colunas cativas em jornais. O que se conhece do seu pensamento consta de livros e artigos académicos que escreveu e das intervenções que vem fazendo em actos públicos e, mesmo aqui, é preciso que algum jornalista considere que o que ele diz ou escreve tem valor-notícia e merece citado.

Ora, são os jornalistas,  afinal os mesmos que  conferem especial visibilidade a Marcelo, a Santana – e  a outros pré-candidatos menos “viáveis” como Paulo Morais, Marinho e Pinto, Henrique Neto, também com assento frequente nas televisões e jornais – a virem dizer agora que Sampaio da Nóvoa não tem “chances” de ser eleito porque é pouco conhecido.

É uma perversidade do nosso sistema político-mediático que sejam os media a decidirem quem pode ou não ser candidato, privilegiando  aqueles que já estão “instalados”.

Em Portugal, qualquer comentador da área política com presença assídua nos canais generalistas  de televisão pode tornar-se um bom candidato, independentemente do seu valor intrínseco e da qualidade das suas ideias.

Esta situação é agravada no actual momento pelo facto de os espaços de comentário político em horário nobre nos canais generalistas de televisão, incluindo a televisão pública, estarem entregues apenas a um só partido – o PSD.

A agravar a situação, os directores de informação, apoiados por alguns políticos, continuam a defender que os critérios ditos “jornalísticos” se sobrepõem  à regra ética e democrática de que  os cidadãos que se apresentam a uma eleição nacional, cumprindo as exigências legais, têm os mesmos direitos.

Nesta lógica anti-democrática que dá aos media o poder de determinar quais são os candidatos “importantes” e quais são os pouco ou nada “importantes”, Sampaio da Nóvoa corre o risco de ser enquadrado no segundo grupo.

Ora, numa eleição presidencial as  candidaturas são unipessoais, independentemente dos apoios partidários ou outros que venham a obter, pelo que à partida todas merecem ter as mesmas prerrogativas.

A realidade é esta: a perversidade do sistema político-mediático não permite e impede mesmo a renovação do pessoal político.

 

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9 respostas a Presidenciais: A perversidade do sistema político-mediático não permite a renovação do pessoal político

  1. Pingback: Eleições e comentadores: manda quem pode | VAI E VEM

  2. Quando se deixou que os privados tomassem conta da comunicação social, não sabíamos já que ir dar nisto? Ou estávamos pensando que eles iriam querem lá a trabalhar, jornalistas a sério? Eles queriam e querem lá, são os paus mandados, os moços de recados, os graxistas e os sem vergonha! E os culpados fomos nós que nos deixamos embalar pela canção do bandido.

  3. nuno diz:

    Não tenho a mínima dúvida de que assim é.

    “Esta situação é agravada no actual momento pelo facto de os espaços de comentário político em horário nobre nos canais generalistas de televisão, incluindo a televisão pública, estarem entregues apenas a um só partido – o PSD.

    A agravar a situação, os directores de informação, apoiados por alguns políticos, continuam a defender que os critérios ditos “jornalísticos” se sobrepõem à regra ética e democrática de que os cidadãos que se apresentam a uma eleição nacional, cumprindo as exigências legais, têm os mesmos direitos.”

    Mas políticos e governantes do PS também ajudaram a quebrar a coluna aos jornalistas, facilitando-lhes os despedimentos, dificultando a vida a quem se quisesse valer das cláusulas de consciência quando há tanta gente que nem sabe o que isso é; o aproveitamento do trabalho em várias plataformas, sem pagar, angariando mais publicidade, mas facilitando a vida às chefias que publicassem os trabalhos em stereo, em vez de terem de ter mais gente em redacção; responsabilizando judicialmente quase apenas os jornalistas desresponsabilizando editores e directores.

    O elogio e apoio das chefias fica para os mal-cheirosos, não fica para quem conteste um certo modo de fazer jornais, que esses sabem bem onde fica a porta da rua.

    Infelizmente, muitos dos afectados ficaram calados quando era óbvio que assim ia ser. Não tenho especial pena deles. Só dos que avisaram, dos que mais uma vez tiveram a opinião fora daquilo que se acha ser importante – e que passa por entrevistar uma dúzia de banqueiros em horário nobre, achar lunático um João Ferreira do Amaral ou evacuar Carvalho da Silva de todos os cenários presidenciáveis.

  4. nuno diz:

    O que nos vai valendo sempre são os intérpretes do Povo, como um J. Madeira afinadinho no lugar comum publicado de que “nas esquerdas, vai ser a confusão do costume, cada agrupamento terá o seu candidato, sem grandes preocupações das reais necessidades do País” .
    Eu cá sei o que quero, já do Povo sabe o J. Madeira. Ainda bem que no-lo diz, ou a gente passava-lhe ao lado.

  5. domingos estanislau diz:

    Eu há muito que já decidi. Não custa nada. É uma personalidade que não faz parte desta pandilha que todos os dias entram pelas nossas casas dentro a venderem-nos a “banha da cobra”. Tudo feito, é por isso que eles são comentadores políticos, comentadores de futebol, entrevistam os Ronaldos deste País, pois claro, para serem conhecidos, hoje diz-se “figuras publicas” e se são figuras publicas, logo são pessoas importantes, que o povo foi educado e instrumentalizado para os venerarem. Por tudo isto eu votarei no candidato do PCP, não sei quem é, mas não é nenhum com as características destes vendedores de banha da cobra, será de certeza uma pessoa honesta e livre de qualquer especulação, como têm sido todos os anteriores candidatos PCP.

  6. F Soares diz:

    Os médias e jornalistas (?) vão querer demonstrar mais uma vez que conseguem vender candidatos tal como se vendem sabonetes….Até dizem que há liberdade de imprensa, pois posso comprar o jornal e ver o canal que quiser…

  7. EGR diz:

    Tenho cada vez mais dificuldade em chamar jornalistas a esses escreventes.

  8. J. Madeira diz:

    Exacto! É o “sistema” a funcionar tentando manipular e condicionar o voto dos
    portugueses num arremedo do caciquismo fascista! Acabam por dar razão ao
    tal palhaço brasileiro que conseguiu ser eleito duas vezes com largas maiorias!
    O prof Marcelo, também conhecido como o Catavento, não concretizará a sua
    candidatura tem medo de perder mais uma vez e, com a derrota vai-se o resto
    da sua pouca credibilidade política! Assim pela direita, ficará o Santana Lopes,
    o Henrique Neto e, os putativos restantes ficam-se pelas intenções!
    Nas esquerdas, vai ser a confusão do costume, cada agrupamento terá o seu
    candidato, sem grandes preocupações das reais necessidades do País que,
    práticamente, está sem Presidente da República de há três anos a esta parte!
    O que o Povo vai querer é um Presidente, que zele pela Constituição e. não
    permita “trapalhadas” dia sim dia não ao governo, que obrigue ao escrupulo-
    so cumprimento das Leis, que reintruduza a ética na política e costumes !!!

  9. llopes49 diz:

    O que dá um grande jeito aos mediocres,aos pilha-galinhas e aos saca-milhões. Quem perde mesmo à séria ó Pais Portugal paraiso de landrus e afins.

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