A paranóia instalada nos media e nos partidos políticos acerca dos candidatos presidenciais é consequência directa do erro clamoroso do Presidente da República em não ter antecipado as eleições legislativas. O Presidente foi incapaz de prever que a proximidade dos tempos eleitorais das legislativas e das presidenciais – atropelaria candidaturas e campanhas, trazendo o caos ao debate político e ao esclarecimento dos cidadãos.
Como se isto não bastasse o pior da política e veio à superfície logo que o académico Sampaio da Nóvoa veio a público admitir a possibilidade de se apresentar às eleições presidenciais, sobretudo depois de alguns órgãos de comunicação social terem anunciado que ele teria o apoio do Partido Socialista.
Primeiro, foi a revolta interna no PS a mostrar como é difícil aos aparelhos partidários colocarem o País à frente do partido. Alguns socialistas não se importaram de pôr em cheque o próprio líder e o trabalho que tem feito para levar o partido à vitória nas legislativas.
Depois, foi a intriga lançada no Diário de Notícias tentando atingir Sampaio da Nóvoa no desempenho de funções académicas. Essa intriga foi depressa desmontada mas continuou no mesmo jornal, desta vez tendo como alvo a única pessoa que até agora deu a cara como apoiante de uma eventual candidatura de Nóvoa: Eduardo Paz Ferreira, também ele um conceituado académico.
António Costa manteve a cabeça fria e não podia fazer mais nem fazer diferente. Era evidente há muito que o surgimento de candidaturas presidenciais iria sempre colidir com a discussão das legislativas. Mas é também evidente que quanto mais tarde elas se apresentarem maior será a confusão. A recusa de Guterres, ouvida finalmente de viva voz, acabou com o “sebastianismo” dos que teimavam em pensar que depois de ter decnunciado e abandonado o “pântano” ele voltaria outra vez, ainda que com grandes probabilidades de ganhar Belém.
Agarrados a sombras – era sabido que Gama não iria candidatar-se e Vitorino também não – alguns socialistas desataram a desfazer em Sampaio da Nóvoa que se viu forçado a vir esclarecer que nunca pediu apoio a António Costa nem este lhe prometeu apoio.
Costa fez, pois, o que devia fazer: não inventou um candidato do partido; recusou responder aos socialistas que sob anonimato o criticaram e aos que dando a cara atacaram Sampaio da Nóvoa; não cedeu aos “assaltos” jornalísticos que o querem obrigar a dizer “sim” ou “não” a Sampaio da Nóvoa; continua a preparar o programa alternativo de um governo socialista, determinado a decidir o apoio do PS a um candidato presidencial só depois das legislativas e quando forem conhecidas todas as candidaturas.
Talvez seja a primeira vez que um partido respeita claramente a eleição de um Presidente da República, não instrumentalizando o sentido dessa eleição ao deixar que os candidatos se apresentem para depois apoiar aquele cuja visão do cargo e do País esteja mais próxima da sua.
Não se percebe porque razão António Costa é “obrigado” a dizer já quem é o candidato presidencial que o PS vai apoiar e Passos Coelho, Paulo Portas e mesmo Jerónimo de Sousa ou os líderes do BE não têm a mesma “obrigação”.
É natural, mas não é transparente, que à direita, Marcelo Rebelo de Sousa ou Santana Lopes se guardem para Setembro para anunciarem se são candidatos presidenciais. É que ambos têm palco televisivo assegurado e não iam querer perdê-lo a esta distância. Se o fizessem seria insustentável para as televisões manterem espaços cativos apenas a dois candidatos.
É óbvio que a direita não gostou da eventual candidatura de Sampaio da Nóvoa,
o próprio prof Marcelo mostrou o contrário que, muitos e apressados comentadores
disseram sobre a facilidade que teria em ganhar dado o emergente candidato ser
um “desconhecido”! Lamentável tem sido o comportamento de algumas figurinhas
do PS que, parecem não compreender as prioridades do partido, tão pouco mostram
saber quais os interesses e necessidades dos portugueses e, não se empenham
em combater as narrativas da maioria com o azedume com que se atiram ao corrente
caso!
Tem toda a razão, Estrela Serrano.
Verdadeiramente espantoso é existir este tipo de debate silenciando-se o que é mesmo mais importante: o espaço de opinião nos canais de sinal aberto é privilégio reservado a destacados militantes do PSD. Um escândalo. Mais: o comentador Marcelo faz a sua campanha a partir do palanque domingueiro, paulatinamente, como quer. E não se invoque, como desculpa, haver mais pluralismo nos canais temáticos, porque as audiências destes são ínfimas comparadas com as dos canais de sinal aberto.
Isto influencia, altera mesmo, as regras do jogo democrático.
Ninguém repara nisto? Ninguém se indigna ante este panorama digno de uma república das bananas?
Resumindo: vivemos num regime em que somos reféns dos média !