Mariano Gago: um testemunho singelo

Mariano-GagoCorria o ano de 1997 e um grupo de professores e investigadores de várias universidades e escolas superiores, liderado por Nelson Traquina, professor e investigador na Universidade Nova de Lisboa, um dos impulsionadores do ensino universitário do jornalismo, em Portugal, desafiou-nos para criarmos em conjunto um centro de investigação inter-universitário e inter-geográfico, não integrado nem dependente de uma universidade,  dedicado ao estudo e investigação dos media e do jornalismo.

Nascia assim o Centro de investigação Media & Jornalismo (CIMJ), hoje integrado numa unidade em consórcio com sede na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi o primeiro centro de investigação na área, em Portugal, e com um estatuto de autonomia científica e financeira.

Mariano Gago era então ministro da Ciência e Tecnologia e numa conversa da direcção do novo centro, a propósito da “aventura” que sabíamos ser criar uma unidade de investigação a partir do zero e sem a “retaguarda” de uma universidade, Mariano Gago deu-nos alguns conselhos: criem projectos, apresentem-se a concursos,  estabeleçam parcerias nacionais e internacionais, publiquem artigos, não se preocupem com a sede (não tinhamos então sequer um local para instalar o centro). Com os projectos virá o resto, dizia Mariano Gago, primeiro a investigação, só assim poderão afirmar-se e crescer, fazendo crescer a vossa área científica.

Assim fizemos e assim crescemos com investigadores de universidades e escolas superiores de todo o país. Ganhámos projectos nacionais e internacionais, entrámos em redes internacionais, criámos uma revista científica, uma colecção de livros, entrámos no sistema científico nacional em sucessivas avaliações da FCT sempre com muito bom.

Até que o governo de Passos Coelho e a liderança da FCT tornaram tudo mais difícil, obrigando os investigadores e os centros a  inegrarem-se nas universidades, numa lógica que pouco tem já a ver com a ideia inicial que deu origem ao CIMJ.

Este é apenas um testemunho singular que recordo num dia em que a investigação e a ciência ficaram mais pobres com o desaparecimento de Mariano Gago. Não é ainda possível avaliar a dimensão do retrocesso que as actuais políticas para o ensino superior e para a investigação representam em relação àquelas que ele criou e desenvolveu.

Dir-se-ia que a morte de Mariano Gago é simbolicamente um sinal de solidariedade com a morte anunciada, às mãos do actual governo e do seu ministro Nuno Crato, de 50% dos centros de investigação. Há pessoas que quando desaparecem levam consigo muito mais que a sua própria vida.

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2 respostas a Mariano Gago: um testemunho singelo

  1. llopes49 diz:

    Palavras bonitas e merecidas.

  2. HOJE É UM DIA DE LUTO E NÃO PARO DE CHORAR, NEM SEQUER CONSIGO DIZER MAL DA NADA E HÁ TANTO PARA DIZER, MARIANO GAGO, UM HOMEM BOM, DUMA CULTURA E INTELIGÊNCIA INVULGARES. VOU CONTINUAR A CHORAR ATÉ QUE AS
    LÁGRIMAS SEQUEM.

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