Curiosidades da sessão solene

Ar 25 de AbrilUm dos repórteres da SIC que cobria a sessão solene na Assembleia da República queixava-se, a certa altura, de restrições ao trabalho dos jornalistas que não podiam chegar junto dos visitantes da exposição sobre o 25 de Abril que se seguiu ao discurso do Presidente da República.

Disse o repórter que o trabalho dos jornalistas é estar no meio dos visitantes e captar os seus comentários  mas  a segurança da Assembleia e o gabinete da Presidente impuseram regras que dificultam a circulação dos jornalistas.

Acrescentou o repórter que daí a pouco (quando acabasse a visita à exposição) então os políticos já queriam os jornalistas por perto porque lhes  interessava fazerem declarações.

E de facto assim aconteceu, daí a pouco os representantes do PSD, do CDS, do PCP e do Bloco de Esquerda lá fizeram os comentários ao discurso do Presidente. Mas do PS nada, ninguém aparecia junto dos jornalistas para comentar o discurso do Presidente, queixava-se o repórter: “Não há PS”.

Interveio então a jornalista do canal que acompanha diariamente os trabalhos parlamentares, Anabela Neves, informando que  o PS falaria “no Rato” e não no Parlamento. Quando a ouvi, cheguei a pensar que o PS teria ouvido as queixas do repórter e resolvera não aparecer junto dos jornalistas para comentar o discurso do Presidente.

Mas Anabela Neves explicou que  já “cheira a poder”  e  que o PS quis distinguir-se dos outros partidos, falando na sua sede.

Vi depois que no Rato havia uma cerimónia especial para comemorar as eleições para a Assembleia Constituinte com a presença dos deputados constituintes com descerramento de lápida e discurso de António Costa. Os repórteres estavam lá, não necessariamente os mesmos que estavam na Assembleia da República e lá cobriram o discurso do líder do PS.

Este episódio revela alguns dos vícios do  chamado jornalismo político que em Portugal se alimenta sobretudo de declarações dos agentes políticos que os jornalistas reproduzem e depois servem de tema para comentários e análises que alimentam o fluxo noticioso dias a fio. Este tipo de jornalismo é o mais fácil porque não envolve investigação e faz dos jornalistas pés de microfone. Não esclarece nem informa porque não é sujeito a escrutínio dos próprios jornalistas. Porém, os políticos que frustram as expectativas dos jornalistas em momentos e locais em que estes querem que eles falem, são penalizados pelos próprios jornnalistas.

Esta lógica diz mais sobre o jornalismo político do que sobre a política.

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4 respostas a Curiosidades da sessão solene

  1. Caro José Manuel Mestre, não compreendo a sua sensibilidade ao meu post. Não usei a palavra “incomodar” e limitei-me a resumir as palavras que ouvi no directo e penso que não adulterei a ideia central que transmitiu. Lamento que reaja com tanto azedume a uma observação perfeitamente natural e registo as observações que me dirige e me surpreendem pela intolerância que demonstram. Sinceramente não espera de si tal reacção, aprecio o seu trabalho e até o seu espírito crítico que pelos vistos não aceita se vindo de outros, e não costume dirigir “remoques” às pessoas sobre o “lado” em que estão ou deixam de estar. E já agora, não faço “passar-me” por nada, muito menos por “referência da comunicação”. Nem vou interpretar as suas palavras como uma tentativa de inibir quem se atreva a comentar uma intervenção sua. Respeito as suas opiniões, e espero que respeite as minhas e agradeço-lhe ter lido e respondido ao meu post.

  2. José Manuel Mestre diz:

    Caríssima Estrela Serrano,
    Só para lhe dizer duas coisas, a si que ao jeito de quem não escolheu há o muito o seu lado tenta fazer passar-se por referência da comunicação:
    1. na comunicação é fundamental saber ouvir e não truncar o que outros dizem; embora saiba que a regra não é comum a todas as áreas do pensamento, lamento que tente fazê-lo e várias vezes no mesmo texto;
    2. esse repórter de que fala nunca disse que os jornalistas deveriam poder incomodar quem visitava a exposição; indignou-se, sim, por quererem transformá-lo naquilo que a senhora diz criticar mas por que afinal tanto parece ansear: que ele e os outros sejam isso mesmo, meros pés de microfone, à medida por exemplo de certos esboços de vontade para cobertura de campanhas eleitorais, serventis de megafones alheios ao dever e papel do jornalista na sociedade.
    Lamento desiludi-la, mas veio bater à porta errada e, por muito que trunque o que ouviu, conte sempre também deste lado com o exercício do direito à indignação, de resto tão simbolicamente exercido no último dia 24 pelos directores de diferentes órgãos de comunicação social.
    José Manuel Mestre
    Carteira Profissional de Jornalista n* 1060

  3. cristof9 diz:

    Comemoração do 25 abril para o ano que vem seria renovadora (para quem assistiu as 40 é uma seca) se num debate alargado se apresentassem soluções para anularmos a força das corporações que tèm cativado o pleno e real uso da democracia. Como é possivel que tanta investigação (sobre as fraudes com as verbas da UE por ex.) prescrevam? Como é possivel que tantas decisoes na AR sejam nitidamente lesivas do bem publico a favor da grupos e interessas partivulares? enfimdebate sdeste para expurgar a nossa democracia dos cancros que teimam em não a deixar flori como era esperança dos 92% que votaram nas 1ª eleiçoes.

  4. Paulo Barral diz:

    Muito bem Estrela Serrano. Alguns de nós sabem como isto funciona.

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