Um momento de viragem na política

O estudo encomendado por António Costa a 12 economistas para servir de base a um programa de governo socialista representa uma viragem na política portuguesa. Não porque seja algo de extraordinário ou impensável, pelo contrário, devia ser uma coisa natural e até obrigatória. Mas não. Em Portugal, não é hábito o debate político basear-se em estudos e documentos de especialistas, valendo antes a improvisação e as promessas sem substância.

Desde logo, o estudo provocou uma quase-revolução na cobertura jornalística da proto-campanha eleitoral, que é a fase que estamos a viver.  Há um “antes” e um “pós”  estudo dos economistas, visível na maneira como os media se referem às propostas eleitorais do governo e do PS, agora com um nível de exigência que antes não se vislumbrava. O debate público tornou-se substantivo e não será mais  possível fazer uma campanha de soundbites como era até aqui.

Depois, o estudo provocou um sobressalto nos partidos da maioria governamental. A reacção inicial do PSD, com Matos Correia a comentar o documento antes de terminada a sua apresentação e assumindo que não o tinha lido, foi um momento patético. Mas o que se passou a seguir atingiu o burlesco: a precipitação do anúncio da  coligação antes de esta ser aprovada pelos directórios do PSD e do CDS e, mais evidente, as 29 perguntas dirigidas pelo PSD ao PS, sobre dados do estudo. coligação PSD CDS

Como se não bastasse, a ideia de submeter o estudo dos economistas-PS à arbitragem de um órgão parlamentar, excede tudo o que se poderia imaginar. O governo entrou em pânico, talvez porque percebeu que o estudo  era demasiado sério para ter como resposta os argumentos do costume.

Dá-se então a situação extraordinária de ser agora o governo que anda à procura de uma alternativa às propostas contidas no estudo, e de ser  o governo, como se fosse oposição, a fazer perguntas ao PS, como se este fosse governo.

Decididamente, António Costa e o PS estão a conseguir marcar a agenda política e a agenda mediática. Deixou de haver uma única via para a saída da crise e os jornalistas passaram a dispôr de matéria substantiva para elaborarem as suas análises.  Não é já o governo que comanda a agenda política, antes vai atrás da agenda do PS.

Há outros sinais de viragens, não apenas na politica… Ficam para outro texto.

 

 

 

 

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