As perguntas depois do vídeo

O rapaz de 13 anos vítima de bullying na Figueira da Foz entrou-nos em casa pelas redes sociais e pela televisão. Lemos e ouvimos palavras de condenação vindas de todos lados e ouvimos as explicações dos especialistas que nestas ocasiões são chamados a organizarem o nosso pensamento e a dar um sentido àquelas imagens.

Tantas perguntas e tão poucas respostas! Não conhecemos o contexto  da rapariga que bate no rapaz nem o da outra rapariga que incita a primeira a bater com mais força. Não percebemos porque razão a vítima se mantém quase imóvel, sem um grito nem um esboço de fuga ou de defesa….

Alguma explicação há-de haver. Vêm-me à memória os episódios das praxes violentas a que assistimos há algum tempo. Os jovens das praxes são universitários, é certo, mas encontro nos “praxados” e no rapaz da Figueira da Foz a mesma passividade resignada e a imagem do sacrifício como rito de iniciação para entrada no “grupo”, o sentimento de pertença e o cumprimento das regras, por mais violentas e absurdas, que legitimam essa pertença.

Sabemos pouco ou nada do jovem da Figueira da Foz que se deixou bater. Talvez por isso as dúvidas persistam: seria ele membro do grupo que o espancou? Que “culpa”  expiaria? O que explica  a aparente resignação com que aceitou as palmadas? Porque não se queixou na altura? E os seus pais sabiam?

A violência que vemos nas imagens do jovem da Figueira da Foz não parece ser uma briga como aquela, que agora as televisões recuperaram, em que uma rapariga é violentamente agredida por outra rapariga e por um rapaz  que a arrasta pelos cabelos para o chão e ambos a pontapeiam na cabeça e no corpo.  Aí havia claramente uma discussão com violência crescente. A cena da Figueira da Foz também não é do mesmo tipo daquela outra em que uma aluna agride a professora que lhe tirou o telemóvel na aula. Aí houve um momento de cólera e descontrolo da rapariga e de resistência da professora.

O caso do rapaz da Figueira da Foz  é mais enigmático, não apenas pela passividade da vítima mas pelo “ambiente” que rodeia a cena, onde não se vêem sinais de discussão ou briga, em que a agressora se queixa até de lhe doer a mão que bate e anuncia à segunda rapariga que vai bater com a outra mão o outro lado da cara do rapaz.  Dir-se-ia que existe naquelas raparigas uma assustadora pulsão para a exibição da punição do rapaz e neste uma resignação próxima  do masoquismo….

Nesta cena, onde estamos nós, pais, educadores, cidadãos?

 

 

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Uma resposta a As perguntas depois do vídeo

  1. cristof9 diz:

    A sociedade é muito pequena; um assunto que tem um ano mobiliza muita comunicação social, dirigentes de escola, pais.. o mais significativo – perceber como os jovens se enquadram e relacionam , e se se sentem integrados com o resto dos cidadãos continua ausente da preocupação dos media e encarregados de educação.Estão e vão continuar a estar por sua conta e risco.

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