Há uma parte da história que nunca é contada

Vivemos um tempo em que as forças policiais e os agentes da justiça ganharam grande protagonismo mediático, nem sempre por bons motivos, diria que, ultimamente pelos piores motivos.

pai agredidoNão estamos ainda refeitos das imagens da violência policial em Guimarães e em Lisboa no domingo passado. As televisões encarregam-se de nos lembrar a toda a hora que o polícia Filipe que bateu no pai e empurrou o avô à frente dos filhos e netos devia ser suspenso, quiçá, expulso da corporação. A ministra veio dizer que não pode nem deve haver julgamentos na praça pública. Mas há.  e nem ela nem ninguém podem evitá-los.

Em breve aquelas imagens desaparecerão dos écrans e talvez um dia mais tarde venhamos a saber o que aconteceu a quem provocou e alimentou os desacatos, do lado da polícia e do lado dos  civis.

Mas há uma parte da história que nunca  é contada. Talvez os jornalistas devessem interessar-se por ela. E não seria apenas neste caso. Seria também nos casos do Leandro, preso mais de um ano por abuso sexual de menores que não se provou e que confessou o crime que não cometera forçado pela polícia. Do Armindo, acusado da morte de uma tia que afinal outro homem matou.

Os jornalistas de investigação que se fazem assistentes em processos para conhecerem os seus segredos; que reportam os despachos que lhes chegam por mãos invisíveis; que seguem e veneram procuradores e juízes, podiam usar a sua experiência e conhecimento do meio para seguirem e escrutinarem com igual zelo o que leva as forças de segurança e os agentes da justiça a praticarem erros tão colossais como estes e tantos outros que ficam para sempre sepultados no esquecimento.

Porque não escrutinar os processos de decisão e actuação de quem aplica a justiça e impõe a ordem? O que levou o polícia Filipe a usar tamanha violência em Guimarães? O que levou o procurador e o juíz a acusarem o jovem Leandro? E é legítimo bater num preso para forçar uma confissão? E como é que provas falsas levaram à  condenação de Leandro e de Armindo?

Será que o jornalismo de investigação é capaz de escrutinar as fontes que lhe dão a matéria de que se alimenta? Talvez começar por estes casos, insuspeitos de conotações políticas, fosse um bom começo…

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