Sobre os media e os poderes: fragmentos de um debate

jornalismoOs media são um poder? Existe um poder mediático?
Os media não são poder nem contrapoder. São metapoder. Um poder que interfere e perturba o funcionamento de outros poderes.

Contudo, não sendo um poder, os media têm poder. Como se manifesta então o poder dos media? Qual a sua fonte de legitimação?

Os media têm o poder de decidir quem tem voz no espaço público. Ao darem visibilidade a determinadas figuras conferem-lhes o poder da palavra pública, isto é, o poder de influenciarem a agenda pública – os assuntos sobre que falar e como falar deles. É certo que as redes sociais permitem aos cidadãos que têm acesso à Internet (e não são ainda, em Portugal, a maioria) expressarem livremente as suas opiniões. Porém, em muitos casos as redes sociais limitam-se a amplificar as vozes dominantes nos media tradicionais.

Perguntam alguns: de onde vem a legitimidade dos jornalistas? Quem os elege? A legitimidade dos jornalistas advem-lhes da obediência a um código deontológico e a um estatuto profissional que lhes confere responsabilidades, direitos e deveres, como sejam o segredo profissional (prerrogativa de muito poucas profissões). Advém-lhes ainda do contrato social com os cidadãos que esperam deles o respeito por um conjunto de regras, como o rigor da informação, o exercício do contraditório, a identificação das fontes, a separação entre os factos e as opiniões.

Quais são os poderes que interagem e interferem  com o poder mediático?
Desde logo, o poder económico, o mais determinante na independência e autonomia dos jornalistas. É um poder invisível, vindo dos proprietários, dos investidores e anunciantes, muito pouco escrutinado (veja-se o caso BES, “escondido” até ao momento em que não foi possível escondê-lo mais).

O poder político, o mais escrutinado  e o único sujeito a uma crítica sistemática eivada de cinismo,  Ao contrário do que a vox-populis faz crer, o poder político é o que menos poder efectivo tem para interferir na independência e na autonomia dos jornalistas.

E há um poder emergente, que cresceu com o enfraquecimento e descrédito do poder político, que se assume como o  “justo” e o “verdadeiro”, quase transcendental – o poder judicial – olhado pelos media com respeito e seguidismo, não sujeito ao seu escrutínio, antes defendido e protegido como aliado preferencial.

(a continuar)

(fragmentos do debate sobre PODERES organizado pelo Sindicato dos jornalistas,  a emitir pela TSF esta quinta-feira às 21h00)

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3 respostas a Sobre os media e os poderes: fragmentos de um debate

  1. cristof9 diz:

    Cada vez mais os leitores exigem dos media que exerçam com alguma seriedade o contraditorio.
    Como podemos ver nos comentários os cidadãos já não “papam” todas as noticias “trabalhadas” ou opiniões damasiado obvias, sem protestarem. Mas o valor e exigencia dos jornalistas isentos é dum valor que todos os “lados” devem acarinhar; serão sem duvida na vida publica os nossos melhores amigos.

  2. JRodrigues diz:

    «Os media têm o poder de decidir quem tem voz no espaço público»

    Pois sim, mas não só ! Os media têm ainda o poder de deturpar as vozes que circulam no espaço público.

    Veja-se o destaque dado hoje pelo Público à entrevista da A Costa à SIC : ” Costa não descarta aumento da idade da reforma”, qd Costa apenas disse que não ia mexer na lei. Pode da aplicação da lei em vigor vir a resultar o aumento da idade da reforma? Pode! Mas de toda a entrevista pq é que se escolhe este tópico e nenhum outro de entre os tantos que foram abordados ? Quem é que acredita que o critério foi casual ? depois de cenas destas, como dar crédito à deontologia profissional do jornalismo ?

  3. jose neves diz:

    “(veja-se o caso BES, “escondido” até ao momento em que não foi possível escondê-lo mais).”
    Eu escreveria; veja-se o caso BES, “guardado” até ao momento em que foi decidido tirá-lo da gaveta para jogar na roleta política.

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