A receita europeia para a Grécia: humilhar para vencer

(Photo JOHN THYS. AFP)

(Photo JOHN THYS. AFP)

Os jornais disseram e as televisões mostraram a prova da tentativa indecorosa da humilhação da Grécia:

“(…) Já com Tsipras na capital belga, onde ao longo de sete horas tentou ultrapassar as divergências, a contraproposta dos credores foi passada à imprensa: cinco páginas todas riscadas a vermelho, cheias de emendas ao texto grego e com novas exigências. Fonte comunitária disse ao Económico que o documento completo é maior, mas só aquelas páginas mais rasuradas foram parar à imprensa.”

É impossível deixar de pensar que existe má-fé da parte dos responsáveis europeus que não hesitam em usar todos os meios para desacreditarem o governo grego. Será que não têm consciência dos danos que estão a infligir ao próprio projecto europeu?

Os cidadãos europeus, independentemente de serem de direita, de esquerda ou do centro, têm dado sinal de que recusam a arrogância e o espírito anti-democrático, falsamente rigoroso, das  instituições que lideram as negociações com a Grécia.

Os problemas da Grécia, que amanhã poderão ser os de qualquer outro país, não se resolvem com atitudes de superioridade moral, sobretudo quando os chamados “incumpridores” foram obrigados a seguir uma receita imposta por quem agora os quer punir precisamente por a receita não ter dado resultados.

Os mandantes da Europa apoderaram-se do projecto europeu e têm vindo a desfigurá-lo, impondo políticas cegas como se os países fossem todos iguais e tivessem todos partido de uma mesma situação económica, social e cultura quando aderiram ao projecto europeu e, sobretudo, quando adoptaram o euro.

A humilhação da Grécia, como a de Portugal em determinados momentos da presença da troika entre nós, que convém não esquecer, é uma afronta ao princípio da solidariedade europeia e constitui um contributo altamente negativo para o descrédito da democracia ocidental.

Os europeus têm razões para se interrogarem de que serve terem formalmente uma democracia com direito a escolherem os seus governantes e o sistema político económico e social em que querem viver, se os técnicos do FMI, da União Europeia e do Banco Central Europeu impedem depois os seus eleitos de conduzirem os destinos do país nos moldes para que foram eleitos?

O discurso sobre “credores”, eufemismo para referir a Alemanha e o FMI, esconde que credores e devedores somos todos e que, bem feitas as contas, talvez os credores ganhem mais com os devedores do que os devedores ganham com os empréstimos dos credores.

O discurso oficial vindo de Bruxelas, e propagandeado pelos media nacionais e internacionais, esconde o evidente preconceito ideológico que está subjacente à intransigência manifestada pelos líderes europeus que exigem à Grécia uma capitulação total.

O comportamento do Eurogrupo e dos líderes europeus mostra à evidência que a democracia europeia não é mais que uma mal disfarçada ditadura dos países mais fortes sobre os mais fracos, de que a Grécia é o expoente mais visível mas onde cabem também Portugal, a Espanha e a Itália.

Não nos enganemos! Hoje é a Grécia a ser humilhada, amanhã podemos ser nós.

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