Ainda a conversa dos dezoito contra um

Ouvi esta manhã, na Antena 1, Paulo Rangel dizer, como já tinham feito  outros membros do PSD e do CDS, que “os outros 18 países da UE também são democracias e também há povos” e se houver referendo em alguns deles “podem votar contra um acordo com a Grécia” e isso é tão válido como o Não do referendo na Grécia.

Paulo Rangel classificou como  “mais um número” a demissão de Varoufakis, certamente tendo presente  “números” (esses sim) como a “demissão irrevogável de Portas” e a carta de demissão de Vítor Gaspar. Exibindo o discurso do medo tal como os líderes europeus que lhe servem de referência, Rangel apelidou a decisão dos gregos de “insensatez” augurando-lhes um futuro medonho. Elogiou o governo português que soube decidir o que era melhor para os portugueses.

Ouvir pessoas que consideramos democratas e informadas menorizarem a opção grega de dizer “Não” a um plano drástico imposto pelo Eurogrupo, comparando-a com a obediência resignada e acrítica do governo português perante as imposições da troika, é ignorar regras básicas da democracia.Grécia noite do referendoTsipras consultou o povo quando sentiu que não podia assinar um acordo que contrariava tudo o que prometeu aos gregos quando estes o elegeram. Não se trata de recusar a austeridade, como dizem  repórteres e comentadores mal informados ou mal intencionados. O Syriza recusa sim um programa de austeridade que não resolve, como não resolveu até aqui, o problema da dívida. Aliás, a troika é, pelo menos, tão responsável pelos maus resultados do resgate na Grécia como os próprios governos que os aplicaram. Foi a troika que delineou o programa e o impôs.

Segundo algumas teorias que temos por aí ouvido, um governo é eleito com carta branca para fazer o que quiser, independentemente das promessas com que ganhou o voto dos cidadãos. Tsipras não pensa assim e por isso consultou o povo.

Ora, Passos Coelho fez precisamente o contrário. Foi eleito com base em promessas que se propôs cumprir, após a recusa do seu partido, com o apoio do CDS, PCP e  BE, de um programa de austeridade chamado PEC IV. Uma vez chegado ao governo, aliou-se ao CDS e esqueceu todas as promessas feitas para ganhar o voto, agravando ainda mais a austeridade prevista no PEC IV.

A  legitimidade de um governo que consulta o povo antes de violar promessas eleitorais é infinitamente maior do que a daquele que uma vez chegado ao poder decide violar as promessas feitas.

Talvez Passos Coelho devesse também ter feito um referendo para obter a legitimidade de que necessitava para “ir além da troika”.

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8 respostas a Ainda a conversa dos dezoito contra um

  1. cristof9 diz:

    Ainda volto só para destacar a sondagem que deu 85% a quererem a Grecia fora do euro e denuncia no parlamento europeu do ex 1º belga. A titubiante solidariedade na UE a derrapar para alem da situação económica e bancaria grega não deixam de ser obras do Tsipras.
    Não sendo partidário o nosso governo conduziu as coisas muito melhor.

  2. Vicente Silva diz:

    Possivelmente, do outro lado do Atlântico, alguém estará preocupado por outras razões bem mais sérias do que estas contas de deve e haver entre merceeiros do mesmo bairro.
    E esse mesmo alguém deverá estar neste momento a interrogar-se sobre que espécie de união estarão por cá a conceber esses génios europeus, que em vez de unir, estão de regresso ao velho sistema ou pior ainda e a abrir feridas já julgadas como saradas.
    E o Tio Sam tem razão ao duvidar da capacidade dos cérebros do lado de cá do Atlântico, sendo que, não terá sido obra do acaso a inversão de marcha da senhora Lagarde ao admitir e afirmar publicamente que a dívida grega seria impagável com a receita aplicada pela troika, pretendendo com isto dizer, penso eu, que a mesma terá que ser reestruturada.
    Estou convicto de que a Grécia irá manter-se na zona do euro não obstante os empurrões e cascas de banana que lhe têm sido postas pelo caminho.
    Sou pela solidariedade e igualmente pela responsabilidade das partes envolvidas, mas sem que o/s mais forte/s façam escravos dos mais fracos ou trocem da sua dignidade.

  3. antónio sebastião diz:

    Há gente que não sabe o que diz, e muito por culpa da estratégia de desinformação deste governo. Os “PEC”, Programa de Estabilidade e Crescimento, não se ficaram pelo IV chumbado pelos canalhas que assaltaram o pote, continuaram, e continuam, a ser exigidos pela UE mas com outros nomes: agora chamam-se “Documento de Estratégia Orçamental” e ” Programa de Estabilidade”

  4. Manuel Gomes, leia a frase completa. Verá que o que escrevo é que o PSD recusou o PEC IV com o apoio do CDS, PCP e BE.

  5. Manuel Gomes diz:

    “após a recusa do seu partido, com o apoio do CDS, PCP e BE, de um programa de austeridade chamado PEC IV”

    Manipular a verdade não lhe fica nada bem, Sr.a Serrano. Tinha-a por mais honesta e com melhor capacidade de fundamentar os seus argumentos.
    Quando insinua que “[Passos Coelho] Foi eleito (…) com o apoio do CDS, PCP e BE” está a distorcer os factos de modo abusivo.
    Na verdade, o PSD aprovou o PEC I do PS e o PCP e BE votaram contra; o PSD aprovou o PEC II do PS e o PCP e o BE votaram contra; o PSD aprovou o PEC III do PS e o PCP e o BE votaram contra. Foi o PS que aceitou governar com o apoio do PSD, implementando sucessivos PECs aprovados pelo PSD, até que o PSD, farejando a possibilidade de chegar ao poder, puxou o tapete ao PS e chumbou o PEC IV. Mas “PEC ante PEC” foi o PS que começou a trilhar o caminho por onde hoje o PSD nos leva.

  6. Cristo, o problema está em pensar-se que a Europa se reduz a devedores e credores, ricos e pobres, do norte e do sul. É assim que está agora. Os programas de resgate não funcionaram como se está a ver mas esses programas foram impostos e controlados pela troika. Nenhum governo se atreveu a dizer que o rei vai nú. O Syrisa tentou isso e a UE+FMI não toleram rebeldias para mais de um partido fora do centrão euuropeu. O resultado é que esse centrão cada vez foge mais para os extremos e a liderança europeia não quer sair do castelo em que se encerrou.

  7. cristof9 diz:

    Se os dirigentes da UE não forem claros e desmontar a votação democrática dos gregos, corremos o risco de desunir ainda mais a frágil e titubeante solidariedade entre povos tão diferentes. Chamar decisão soberana que se tem de respeitar a uma pergunta que implica que o alivio da austeridade dos gregos(eu também votaria oxi) implica que outros povos a vão pagar(ocorre-me os alemães), naturalmente parece-me um sofisma e jogo de sombras apelidado para ganhar autoridade de voto democrático. Convido a que se faça um simples exercício: imaginar como votariam os alemães a este plebiscito feito na Grecia.

  8. J.-M. Nobre-Correia diz:

    Exatamente !

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