As duas faces das redes sociais: a propósito de um post

As redes sociais e os novos media são uma coisa fantástica. Permitem que o espaço público se alargue a todos os cidadãos ou, pelo menos, àqueles que têm acesso à internet. Não partilho, pois, a opinião dos que acham que as redes sociais não contribuem para uma melhor informação e que, ao contrário, desinformam e instrumentalizam.

Mas há uma vertente negativa e quase patológica nas redes sociais que não deve ser ignorada. Traduz-se em manifestações extremadas de sentimentos de ódio e violência verbal, e até ameaças de violência física, denunciadoras de intolerância e incomunicabilidade próximas do bullying.

Vem isto a propósito do post em que critiquei a publicação, na primeira página de um diário, repetida também em revistas chamadas de “sociedade”, da fotografia de Laura Ferreira, com uma legenda que chamava a atenção para a sua cabeça rapada, consequência do tratamento do cancro de que  sofre. Esse post deu origem a manifestações que vão desde o insulto vulgar e grosseiro, à ameaça directa de morte ou ao desejo: “que morras de cancro”.

Essas ameaças não me impressionam, na medida em que se baseiam na ignorância. Alguns dos que se manifestaram nem leram o post, outros leram só o que lhes interessava outros leram  mas preferiram aderir à “onda”. Nada de novo nem de inesperado.

Ora, nesse post abordei as leituras contraditórias suscitadas pela fotografia, como, aliás, se verifica através dos muitos comentários que foram surgindo nas redes sociais.  Não espero, naturalmente, que todas as pessoas que frequentam as redes sociais estejam familiarizadas com uma disciplina a que os estudos de comunicação chamam “análise crítica dos media” e considerem que existem temas tabu que devem ficar de fora dessa análise.  Não penso assim.

Não é a primeira vez que neste blog analiso e comento imagens publicadas nos media, sejam de políticos ou de figuras públicas não ligadas à política. O que me interessa nessa análise é expõr o meu pensamento sobre as diversas vertentes dos media, matéria que estudo há muito  e em que trabalhei profissionalmente.

Mas o mais estranho para mim é que jornalistas com responsabilidades nos seus órgãos de comunicação social os tenham usado para insultar e deturpar o que escrevi e não sejam capazes de distinguir  uma análise da mediatização da  fotografia de Laura Ferreira e do enfoque colocado na doença de que sofre, da própria doença. Comentei a primeira, não a segunda, que pertence à sua esfera privada e merece respeito.

Manter a lucidez, sobretudo manter o nível da discussão é a única resposta possível à histeria que o meu post provocou.

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11 respostas a As duas faces das redes sociais: a propósito de um post

  1. Sr.ª D. Isabel a sua interpretação do meu texto é tão legitima como a minha interpretação da publicação da fotografia de Laura Ferreira e Passos Coelho. Dir-lhe-ei apenas que a publicação dessa fotografia, independentemente da vontade das pessoas fotografadas (nem sei se a publicação foi autorizada ou quem a captou, visto que é sempre a mesma fotografia que surge em várias revistas) seria sempre passível de várias interpretações. O resto são interpretações de interpretações…

  2. ITD diz:

    Cara Dra. Estrela Serrano,

    Como certamente saberá, o que fez não foi uma mera “análise crítica dos media”, mas também uma análise crítica das tácticas políticas de Pedro Passos Coelho – com a “ajuda” de Laura Ferreira e “mediatização” da sua doença. A falta de sensiblidade que lhe é apontada não é referente à análise que fez dos media, mas à análise que fez das supostas motivações políticas de Laura Ferreira para surgir de cabeça rapada…

    A existência de ambas as análises é nítida nos seguintes parágrafos:

    “Porém, a mediatização da doença de Laura Ferreira, iniciada com a publicação da biografia de Passos Coelho, e o sentimento de compaixão que a sua imagem sem cabelo provoca, prestam-se a uma leitura política, sobretudo em época pré-eleitoral em que os políticos tentam aproximar-se das pessoas através de sinais de proximidade, emoção e humanidade. Daí as reacções contraditórias suscitadas pela exibição da fotografia.

    Quanto ao jornalismo, é eticamente reprovável, embora seja cada vez mais corrente, a instrumentalização da doença de uma figura pública, seja para atrair leitores, seja para servir interesses políticos.”

    Claramente, o primeiro parágrafo refere-se à “análise crítica das tácticas políticas”, enquanto que, por contraste, o segundo parágrafo já é “Quanto ao jornalismo”…

    Pelo que muito agradecemos, pelo menos, honestidade quanto ao que escreveu – em vez de uma atitude de refúgio em supostas “deturpações” de algo que não passou de uma “análise crítica dos media”.

    Cumprimentos

  3. Teresa Mateus Cordeiro diz:

    Sra. Dra. Estrela Serrano,

    Bom dia, desejo que se encontre bem.

    Por pontos, prossigo:

    1 – Não tem que me pedir desculpa por não conhecer todos os seus vizinhos;

    2 – Achei muitíssimo curioso o encontrar, nas minhas palavras uma “crítica às minhas “opções políticas” e até “pessoais” (palavras suas)”: não houve qualquer crítica às suas opções políticas, nem nunca teria havido, a menos que fossem radicais, fundamentalistas e atentatórias das humanas dignidade e vida, o que não é o caso.

    3 – Houve e há um desacordo profundo no que toca quer ao conteúdo quer à forma como se pronunciou em relação à publicação do Correio da Manhã: o seu olhar politizado retirou ao seu texto a sensibilidade que o assunto requer: e cito apenas um exemplo: […]sobretudo encontrando-se ela numa situação singular[…].
    Se reler novamente a frase por mim citada acima, não a retirando do contexto em que foi escrita, poderá verificar que a sua aplicação da palavra “singular” se refere ao cancro activo e em tratamento de Laura Ferreira.
    Ora “situação singular” é Laura Ferreira ser a mulher do actual Primeiro Ministro.
    Ter um cancro é – tão infelizmente! – uma situação muitíssimo plural.

    É uma questão de humanidade, de sensibilidade, de respeito pelos outros, pela saúde dos outros, pelas vidas dos outros, onde não cabe qualquer política e / ou crítica a esta: é que há assuntos infinitamente acima da política, que não foram assim tratados no seu post inicial.

    Ficam os meus sinceros votos de um excelente dia.

  4. Teresa Mateus Cordeiro diz:

    @Paulo Rato,

    Poderia assustar-me eu por me deparar com ataques profissionais / pessoais como forma de defesa de causas, neste caso que toma como suas: mas tal [já] não me acontece, também pelas extremas vulgaridade e pobreza da táctica.

    Tenha um excelente dia.

  5. Paulo Rato diz:

    Se Teresa Mateus Cordeiro é especialista em comunicação e na sua análise e, ainda por cima, forma pessoas nas “referidas competências”, a qualidade do ensino, cá pelo burgo, está muito pior do que eu pensava. E isso assusta-me, pois temo a perpetuação da actual mediocridade generalizada. Não que eu não saiba, desde os meus tempos de faculdade, que os títulos académicos não são garantia de nada, pois por lá conheci, afadigando-se na transmissão de conhecimentos, algumas das mais nubladas mentes com que tropecei na vida. E há-de haver razões que expliquem o facto de só muito raramente as obras literárias de maior qualidade ultrapassarem tiragens de escassos milhares – ou mesmo centenas – de exemplares, número muito inferior ao de docentes nas nossas Universidades…

  6. Sr.ª Dr.ª Teresa
    Não tenho bem a certeza de ligar o nome à pessoa apesar de, como diz, sermos vizinhas. Não conheço todos os vizinhos, desculpar-me-à por isso. Agradeço o seu comentário mas identifico nas suas palavras uma crítica às minhas “opções políticas” e até “pessoais” (palavras suas). Ora, nesse ponto temos uma enorme diferença eu não conheço, nem me interessa conhecer, as suas, embora pelo seu texto as preveja. Sejam quais forem, porém,respeito-as. Quanto ao conteúdo do seu comentário, óbviamente que um homem, ou uma mulher, é ele/ele e a sua circunstância. Isto vale para mim e para si. Tenha uma boa noite.

  7. Teresa Mateus Cordeiro diz:

    Dra. Estrela Serrano, sou a sua vizinha do 5º Dto.
    Sugiro que, mesmo após a redacção deste seu post e da análise [acima] de Paulo Rato, por si ratificada, releia o penúltimo parágrafo do seu texto que provocou a “histeria” – palavras suas.
    Sabe, é que há mais especialistas em comunicação e na sua análise: é o meu caso e do meu marido.
    O que a senhora desconhece.
    E que analisam textos, escolhas de palavras, a ligação efectuada entre elas, a sua sequenciação.
    Assim como outras linguagens, que por agora não vêm ao caso.
    Entre outras coisas, que [ainda] não se aprendem na comunicação social, nas relações internacionais e no jornalismo.
    E, ainda por cima, formamos pessoas nas referidas competências.
    O que, muitas vezes, não dá jeito mesmo nenhum a quem escreve. Ou fala. Comunica, em suma.
    O que a senhora, com o seu artigo, quis fazer foi, simplesmente, manipular opiniões; foi dar uma leitura do que quis que as pessoas vissem. Vissem como estratégia[s] de manipular opiniões. Interessante, decerto concordará. Ou não. O adjectivo interessante talvez não seja o primeiro a ocorrer-lhe ao ler este meu comentário.
    Note bem a frase-chave da minha publicação até agora: aquilo que a senhora quis que as pessoas vissem na notícia.
    As suas opções políticas e, eventualmente, pessoais, não podiam deixar passar, sem tentar dar os seus quinhentos, que a leitura feita fosse outra. E tentou. Correu o risco. Mas nem todos os fins justificam, para todas as pessoas, todos os meios. E é também preciso ter muito treino para ser totalmente hermética, ao ponto de não se trair em pormenores que não escapam a olhos e mentes treinadas.
    Continuarei a cumprimentá-la cordialmente, em cada vez que nos encontremos.
    Nunca desejei, nem passei a desejar agora, o seu mal : tal não está na minha natureza.
    Cada comunicação tem um contexto.
    E eu não confundo comportamentos e atitudes com pessoas.
    Nesta sua comunicação – e respectivo contexto – em particular, discordo profundamente de si na forma e nos seus objectivos com ela.
    Mas eu concordo sempre em discordar.
    E, neste caso, adicionalmente, sinto-me feliz em discordar.
    Tenha um sereno final de Domingo.

  8. cristof9 diz:

    É na verdade um facto que muita gente(eu p.ex.) comentam cronicas por terem lido as criticas e concordarem com elas e acabam por nem ler o original. São os inconvenientes da massificação da comunicação e que com tempo leva a um elevar da exigência dos cidadãos com a informação. De um profissional preciso que seja dentro do humanamente possível que seja sério e não faccioso; percebe-se que quando o escriba prefere destacar a quebra do segredo de justiça em vez do combate a corrupção está a fazer o seu direito inalienável de escolher o que quer destacar dum facto real. Felizmente que a net me permite dizer-lhe, espero que sempre com correcção, que só os oculos coloridos lhe permitem destacar as moscas em vez da trampa que atraiu as moscas. Se olharmos todos para um bom espelho acabamos por ver tantas vezes em que os oculos coloridos nos têm nublado as coisas.

  9. joshua diz:

    Esse post não foi feliz. Di-lo a doxa e o bom-senso e não há tecnicalidades da Estrela que disfarcem essa infelicidade. Mas a vida continua. Espero que nenhum dos comentários odiosos se concretize. Não gosto de violência argumentativa sem estilo e sem classe.

  10. Excelente análise, Paulo Rato.

  11. Paulo Rato diz:

    O âmbito da análise crítica, sobretudo se assume um nível académico, é extremamente complicado para o cidadão comum, parcamente alfabetizado. Nesta caracterização se incluem jornalistas (ou, como referiu o Baptista Bastos, os “simpatizantes”, numerosos) e outros profissionais aparentemente formados e informados, aos quais as próprias academias não souberam, ou não puderam, ou não conseguiram fornecer as ferramentas necessárias para acederem confortavelmente a esse patamar de comunicação, informação e debate. Verificá-lo não implica o mínimo desapreço por estes comuns e desarmados cidadãos, pois, na esmagadora maioria dos casos, tal incapacidade não é responsabilidade sua, antes de uma classe dominante que, deliberadamente (embora nem sempre os seus executantes actuem com plena consciência), forja um sistema de ensino cuja função é fornecer a cada formando a informação necessária e suficiente para que se transforme numa unidade economicamente produtiva, escamoteando-lhe as ferramentas que o tornariam simultaneamente um cidadão politica e socialmente interventivo, isto é, perigosíssimo para a manutenção do “status quo”. Dada a enorme pressão do sistema, reforçada por uma comunicação social que dedica quase todo o seu tempo e espaço a distrair os cidadãos do que é importante e intelectualmente enriquecedor, seduzindo-o com a banalidade e o vazio – “reality shows”, concursos idiotas, telenovelas ocas, revistas e jornais sensacionalistas, cor-de-rosa, futeboleiros -, raros são os que conseguem escapar a este condicionamento. Não me parece fácil contornar ou ultrapassar esta infeliz realidade. Se um blogue é, sem dúvida, adequado a este nível de comunicação e debate, não estou muito seguro de que uma rede social o seja…

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