A ministra, os magistrados e a pergunta do jornalista: “Confiar em quem?”

O editorial de André Macedo, hoje no DN, chama a atenção para uma situação que se vive actualmente em Portugal (mas não apenas no nosso País),  sem talvez nos apercebermos do seu alcance. Tem a ver com a multiplicação no espaço público de referências à justiça, ao mesmo tempo que vimos assistindo ao declínio das ideologias e dos partidos, e ao enfraquecimento das instituições de supervisão e de controle social. A entrevista da ministra da Justiça ao Público e à Renascença dá razão a estas inquietações.

Enquanto os políticos e os governos caem em descrédito, a  justiça torna-se um campo onde se defrontam estratégias, incluindo as dos próprios agentes da justiça que se tornaram os novos actores do campo político.

Em aliança com os agentes da justiça e sob pretexto do dever de informar enquanto porta-vozes do direito dos cidadãos à informação,  os media constituem-se como os primeiros aliados da justiça, arrogando-se a missão de apresentar como adquiridas certas explicações para determinados crimes ou delitos políticos, tentando colmatar a incerteza da justiça. 

André Macedo pergunta, no Diário de Notícias, “Confiar em quem?  O processo Lava-Jato ameaça sujar muita gente, dentro e fora do Brasil, confirmando a presunção de culpabilidade que a política e os grandes negócios carregam por estes dias de cinismo generalizado, apodrecimento dos partidos e também ganância desmesurada de alguns políticos e gestores“.

E continua André Macedo: Também em Portugal não há dia em que não surjam notícias de investigações e suspeitas ligando estes dois mundos poderosos: o da política e o dos negócios. Enquanto as investigações decorrem e o tempo que consomem incentiva a especulação, provocando uma terrível erosão na credibilidade das instituições, convém não formar juízos de culpabilidade que mais tarde se podem revelar injustos, mas entretanto fatais, para os seus alvos.”

Também hoje a entrevista da ministra da Justiça ao Público e à Renascença,  acentua a pertinência da pergunta de André Macedo, “Confiar em quem?”. De facto, para a ministra, as acusações feitas ao governo pelo Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e pelo Sindicato dos Juízes devem-se à aproximação das eleições e à “necessidade de agitação“. Segundo a ministra, “Há uma necessidade de afirmação, porque [os novos dirigentes sindicais] não são pessoas infelizmente com a visibilidade que tinham os anteriores lideres das associações sindicais. Por outro lado, penso que houve alguma precipitação em promessas eleitorais irrealizáveis, designadamente em sede remuneratória.

As palavras da ministra contra os magistrados são tão graves com as acusações dos magistrados à ministra. Se os magistrados procuram protagonismo em períodos eleitorais, fazem promessas aos seus pares e criticam o governo para ganharam visibilidade, como afirma a ministra, então estamos a caminhar para a judicialização da sociedade. Em vez de uma  democracia  teremos então  uma juristocracia (1).

(1) Guarnieri, C; Pederzoli, P; Thomas, CA; (2002) The power of judges. Oxford University Press, USA

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Uma resposta a A ministra, os magistrados e a pergunta do jornalista: “Confiar em quem?”

  1. MRocha diz:

    Curioso que refira André Macedo, uma das pessoas que, seja pelo seu próprio punho, seja permitindo-o no jornal que dirige, tem contribuido para o tal cenário de suspeição generalizada sobre a classe politica, nomeadamente quando noticia noticias de outros jornais como se as mesmas constituissem uma fonte genuina e sem necessidade de contraditório. Portanto, qd AM pergunta “confiar em quem”, ocorre-me responder : na comunicação social não, seguramente!

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