O BES e o “poderoso” n.º 37

Há coisas que lemos nos jornais e que passam despercebidas e, no entanto, são suficientemente relevantes para não deverem ser ignoradas. É o caso do trabalho do Jornal de Negócios (JdN) sobre “Os mais poderosos” que o jornal publica anualmente. Um dos “poderosos” na lista de 2015 é Álvaro Sobrinho que surge em 37.º lugar, com uma “influência mediática” pontuada com 4 estrelas.Álvaro Sobrinho foto

Álvaro Sobrinho é um banqueiro e homem de negócios angolano, ex-administrador do BES Angola (BESA) e dono da Newshold, a proprietária de dois jornais portugueses: o diário i e o semanário Sol.

O que é interessante na classificação atribuída a este “poderoso” pelo Jornal de Negócios é o seu poder mediático decorrente precisamente da propriedade daqueles dois jornais portugueses e as razões que levam o JdN a incluí-lo no ranking dos “mais poderosos” de Portugal em 2015.

Álvaro SobrinhoA crer no JdN, Álvaro Sobrinho usou os seus dois jornais para “destruir” o “império Espírito Santo. Ora, há aqui vários problemas: em primeiro lugar, a legislação portuguesa (lei de imprensa e estatuto dos jornalistas) veda aos proprietários e accionistas qualquer ingerência ou influência no conteúdo dos jornais, rádios e televisões; em segundo lugar, o poder do jornalismo, que é inegável, não pode ser um “poder destrutivo” contra pessoas ou instituições; em terceiro lugar, o director de informação e a redacção de um jornal são os únicos responsáveis pelos conteúdos noticiosos e regem-se por um código deontológico que  os obriga a respeitarem as regras da profissão, entre as quais, informar com independência e isenção; em quarto lugar, a propriedade dos meios de comunicação social deve ser objecto de escrutínio e obedecer a regras transparentes que não permitam a sua utilização para fins de natureza pessoal, económica, política ou outra dos seus accionistas e proprietários.

Todos nos lembramos de  que o jornal i e o semanário Sol (mas não apenas eles) se distinguiram pela publicação de material exclusivo sobre o BES/GES, nomeadamente as gravações telefónicas das reuniões do conselho de administração. Mas ver assim, dito preto no branco, que os jornais de Álvaro Sobrinho usaram o seu “poder destrutivo” para “apertaram o cerco a Ricardo Salgado” e que isso contribuiu para “a derrocada do império Espírito Santo” não deixa de ser chocante, sobretudo por Sobrinho e Salgado se terem tornado “inimigos”.

Resta saber se os responsáveis dos dois jornais – Sol e i – não têm nada a dizer sobre a acusação que lhes é imputada de se terem prestado a servir os interesses pessoais, financeiros ou políticos do seu proprietário.

Há silêncios muito ruidosos.

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2 respostas a O BES e o “poderoso” n.º 37

  1. O Jornal de Negócios há-de saber do que fala e não foi (que eu tenha lido) desmentido.

  2. cristof9 diz:

    Mas também há uma regra (que espero sagrada), de que o jornalista nunca pode ser penalizado ,por recusar dizer quais as suas fontes!!

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