Lá temos que voltar aos cartazes…

Os cartazes do PS “salvaram” os noticiários das televisões e garantiram audiências relativamente boas para esta altura do ano. Mas a “estória” tem estado mal contada, também por culpa do PS, diga-se.

Agora surgiram uns cartazes da coligação com as caras de uns estrangeiros compradas em bancos de dados. António Vitorino, na SIC Notícias, citou o secretário-Geral do PSD, Matos Rosa, a dizer, sobre os cartazes da coligação, “Quisemos humanizar a campanha. Aquelas pessoas representam o esforço que nós, portugueses, jovens e idosos, fizemos nos últimos anos”. Afinal surgiram pessoas, sim, mas estrangeiras.

Tudo isto é “normal” dentro da anormalidade que caracteriza a “silly season” e as campanhas eleitorais. Mas há, ainda assim, coisas que não foram ainda ditas.

Sobre os cartazes do PS, a crer no que se conhece, o PS cometeu o erro de ter confiado em quem estabeleceu o contacto com as pessoas retratadas – a presidente da Junta de Freguesia de Arroios – sem ter exigido uma autorização escrita das mesmas para utilização da sua fotografia. Outro erro foi ter concebido os cartazes como se fossem depoimentos para televisão em que pessoas falam para a câmara. As pessoas dos cartazes só podiam ter sido associadas a frases na primeira pessoa e com aspas se essas frases tivessem sido ditas (e gravadas) por elas.

Não o tendo sido, e tendo-se elas disposto “de forma voluntária, a participar enquanto figurantes” nos outdoors da campanha (como foi dito pela presidente da Junta de Arroios) então as frases deveriam ter surgido na forma verbal indefinida, isto é, podendo ser ditas por qualquer pessoa por se referirem a situações reais, porém, não representando um testemunho de uma situação vivenciada por quem a ela surge associada na 1.ª pessoa.

Qualquer português reconhece que o  desemprego é enorme, o trabalho precário idem e a emigração é uma chaga. Mas  se aquelas pessoas  não foram perguntadas sobre se queriam “dizer aquilo” não podiam ter surgido como se o tivessem dito.

Mas há um outro lado da questão: as pessoas que surgem nos cartazes não são certamente “anjinhos” que se prestaram apenas a posar para fotografias. Então não perguntaram onde iriam surgir as suas fotografias? Nunca viram uma campanha eleitoral? Pensavam que era só posar para aparecerem, sem mais? Em que país vivem?  Nunca viram uma campanha eleitoral?

E a presidente da Junta não informou o seu “contacto” na campanha do PS sobre a conversa que teve com os “colaboradores que aceitaram ser fotografados? Que conversa ao certo teve com o seu interlocutor da campanha?

Os media, nunca questionaram este lado da questão.

Finalmente, fez bem o director da campanha em demitir-se, na linha, aliás, do que faz em países “civilizados” mas muito pouco em Portugal. Mas não ajuda o completo esclarecimento do assunto, não revelar o nome do autor dos cartazes, embora se perceba que não tendo ele (ou ela), ao que se lê, uma colaboração formal com o PS, este não queira prejudicar uma pessoa  que terá colaborado  a título pessoal. Seja, porém, quem for que fez os cartazes, a responsabilidade é do director de campanha e só o enobrece tê-la assumido. Foi todavia curioso ouvir o deputado do PSD, Duarte Pacheco, na SIC Notícias afirmar que o caso dos cartazes era um fait-divers mas passou a ser um “caso político” porque o director da campanha se demitiu.

Como se tudo isto não bastasse a pivô da SIC Notícias deu como certo que os cartazes irão ser tema de debate no frente-a-frente entre Passos e Costa. É caso para recear o pior quanto ao nível da campanha …

Ainda se alguém por cá criasse um cartaz assim como este, do New Yorker, de Donald Trump, ao menos sempre nos divertíamos…Donald Trump

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7 respostas a Lá temos que voltar aos cartazes…

  1. cristof9 diz:

    Colocaram aqui na rotunda um cartaz com o grande lider Costa, como uma cor de rosa. Ou falta vergonha na cara a quem decide isto ou foi encomenda da oposição? Isto não se faz a quem se mostrou sempre anti racista; uma vergonha que haja gente desta em Portugal. Nos EUA ou Inglaterra , agora aqui!!

  2. Oopst… distracção, sim…:-)

  3. Tentou e disse mesmo e muito bem, Estrela. Estou preocupado com o caminho que as coisas estão a levar.
    João de Sousa

  4. Concordo, João, a coisa não foi bem conduzida desde início, como tento dizer no post.

  5. A meu ver o PS comete dois erros, apenas. Um anterior e outro posterior à divulgação pública dos cartazes.

    O primeiro, um erro absurdo e indesculpável, reside na circunstância de usar fotografias, logo a imagem, de indivíduos sem os indispensáveis conhecimento e autorização dos sujeitos.
    Este erro, absurdo como referi, faz-me temer o pior acerca de uma questão politicamente relevante: o trabalho deve ter sido entregue a um boy ou girl; só pode. Um profissional jamais cometeria um disparate deste calibre, pelo que o critério teve de ser outro.

    O segundo erro, a tibieza na reacção aos ataques de que foi alvo em consequência do uso de figurantes, dominante em acções promocionais de qualquer espécie. A escolha de certas figuras, em detrimento de outras, resulta da essência da comunicação da mensagem. O figurante deve ter uma aparência que suscite uma emoção de identificação por parte daqueles a quem se destina a mensagem. Portanto, deste lado nada a apontar.

    Mas o actual PS vive com uma espécie de “sentimento de culpa” em relação a vá lá saber-se o quê. Daí a frouxidão como padrão das mensagens.

    Alguém no PS deveria reflectir seriamente sobre estas, e outras, questões.

    João de Sousa

  6. Ana diz:

    “Frente a frente entre Passos e Seguro”? Distracção,não?

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