O menino sírio que não me sai da cabeça…

Abdulla Kurdi, pai do menino sírio que morreu em naufrágio na Turquia (Foto: Arte/G1)A publicação da fotografia do corpo do menino sírio a boiar à beira-mar numa praia da Turquia, vítima de naufrágio do pequeno barco onde com seus pais e irmão procuravam fugir da guerra para um lugar onde pudessem viver em paz, lançou algum debate sobre a fronteira entre o sensacionalismo e a informação de interesse público. Eu própria quando vi aquela fotografia, logo pela manhã, no twitter, hesitei por uns segundos sobre se a deveria ou não reproduzir. Interroguei-me sobre o que poderia eu acrescentar em palavras àquela imagem, tão poderosa e tão horrorosamente bela.

Decidi que naquele momento em que a vi nada podia dizer ou escrever que fosse mais forte do que ela própria: o menino morto, à beira mar, a boiar como se fosse uma avezinha, uma alga ou, mais cruamente, uma garrafa de plástico. Aquela imagem tirou-me as palavras e por isso lhe juntei as palavras do poeta. Também por isso a publiquei.

Hoje, olhando sem lágrimas aquela imagem, penso que ela encerra em si mesma mais informação do que qualquer coisa que se possa dizer sobre ela. Sim, sabemos o  nome do pequeno sírio e de seu irmão e Mãe, mortos como ele. Sabemos  que o Pai se salvou e chora desesperado porque os meninos lhes “escorregaram dos braços…..”.

Reparo que o menino está vestido, tem ainda calçados os sapatinhos, apenas a blusinha vermelha saíu do sítio e mostra um bocadinho do seu pequeno corpo. O rosto (a parte que se vê) parece sereno, os olhinhos fechados…

O mar não lhe tirou a roupa, as ondas não magoaram o seu pequeno corpo…talvez o menino estivesse a dormir e não tenha sentido que caíu ao mar dos braços do seu pai….Pobre menino, pobre Pai…

Trágica Recordação

Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora
De o ver brincar, e avisto novamente
Seu pequenino Vulto transcendente,
Mas tão perfeito e vivo como outrora!

Julgo que ele ainda vive; e que, lá fóra,
Fala em voz alta e brinca alegremente,
E volve os olhos verdes para a gente,
Dois berços de embalar a luz da aurora!

Julgo que ele ainda vive, mas já perto
Da Morte: sombra escura, abysmo aberto…
Pesadêlo de treva e nevoeiro!

Ó visão da Creança ao pé da Morte!
E a da Mãe, tendo ao lado a negra sorte
A calcular-lhe o golpe traiçoeiro!

Teixeira de Pascoaes, in ‘Elegias’

 

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