Não se peça aos debates que sejam o que eles não podem ser

debate Costa PassosImpossível não voltar ao debate. Depois de a muito custo terem reconhecido que Costa “ganhou o debate”, muitos comentadores de direita empenham-se agora em passar a mensagem de que o debate “não foi esclarecedor”, “não adiantou nada ao que se sabia”, foi “sonolento”, “faltaram assuntos importantes”, enfim, tentam a todo o custo desvalorizar o debate para, no fundo, desvalorizarem a prestação de António Costa.

Ora, este tipo de críticas pode aplicar-se  a qualquer debate, ainda mais em período pré-eleitoral. Acresce que subjacente a estas críticas está uma crítica aos entrevistadores  e aos organizadores do debate. De facto,  quem escolheu os temas e fez as perguntas foram os jornalistas. Quem fixou o tempo de resposta e de réplica foram os jornalistas. Quem excluíu certos temas e incluíu outros foram os jornalistas.

Em dois minutos e meio (fixados para cada resposta) nenhum assunto pode ser aprofundado e esclarecido, a não ser uma resposta do tipo “sim” ou “não” que não esclarece coisa nenhuma. E se algum candidato pretende continuar a falar para além do tempo fixado, logo o jornalista o interrompe para lhe dizer que termine.

Quanto à crítica de que não houve no debate “nada de novo”, é natural que os candidatos não andem a inventar propostas novas para levar a cada debate e entrevista em que participam. E como as televisões, os jornais, as rádios, andam literalmente atrás dos principais candidatos não há muitas coisas novas que eles possam dizer, a não ser as picardias de que os jornalistas tanto gostam (por exemplo, as perguntas sobre Sócrates).

Ao contrário do que alguns pensam, os debates televisivos não são os locais adequados para o aprofundamento de assuntos ou para a discussão exaustiva do que quer que seja.

Em televisão, o tempo e o ritmo são factores determinantes. Os jornalistas de televisão estão “formatados” para não deixarem “cair” uma entrevista ou um debate e interromperem o orador quando se presume que a atenção do telespectador deixa de se concentrar no que está a ser dito. Esta ideia levou ao primado dos soundbites e das “frases assassinas” preparadas para marcarem e definirem os títulos e as manchetes do dia seguinte.

Os políticos não têm hipótese de fugir a este figurino e contratam profissionais que os ajudam a adaptarem-se a ele. Estuda-se a pose, a dicção, a cor do fato e da gravata, combina-se o protocolo da chegadas e partida,  das posições de cada um, etc.. O candidato passa a ser também actor num palco que, na generalidade dos casos, é um factor perturbador da sua concentração e atenção.

Um debate é sobretudo um momento de espectacularização da política, em que se julga e avalia sobretudo a performance dos candidatos e a sua capacidade de criarem empatia com os cidadãos, através de elementos subjectivos como a emoção, a simpatia, às vezes o olhar, a voz, a expressão corporal. Podemos discordar mas não podemos mudar. É a lógica da televisão e da sociedade do espectáculo.

O que é todavia mais estranho é serem os próprios jornalistas a criticarem  os candidatos por não terem respondido a uma ou a outra pergunta e não terem falado deste ou daquele tema, quando são eles os mestres do jogo. E não falo dos três jornalistas que conduziram o debate, mas sobretudo de todos os que, logo a seguir, criticavam os candidatos por não terem, por exemplo, falado na Europa ou na Justiça e não terem explicado melhor o que querem fazer com a segurança social ou a saúde.

A resposta é fácil: ninguém lhes perguntou e não foram eles que escolheram os temas.

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4 respostas a Não se peça aos debates que sejam o que eles não podem ser

  1. Jasmim e Maria:
    O meu post não tem nada a ver com António Costa mas sim com as televisões e com os visitantes de Sócrates que lhes dão conversa. Tão pouco defendo que José Sócrates “se esconda”, isso é claro em tudo o que tenho escrito sobre ele. Penso, porém, que ele não precisa do circo montado à volta de sua casa. Não tenho nada contra as entrevistas ou declarações que ele queira fazer nem acho que prejudiquem António Costa. E também penso que ele não precisa de intermediários para falarem por ele, a não ser os seus advogados. Mas é claro, a minha opinião vale o que vale.

  2. Passos perdeu em tudo. Começou pela comunicação não verbal (pela postura, pelo gesto, pela atitude, pelo tom de voz, pela expressividade, pelo empenho, etc), e acabou no conteúdo (ou na total ausência dele) porque simplesmente não tem programa eleitoral (ou se o tem ele não é pronunciável em público). Resultado: levou o primeiro murro logo na 1ª intervenção de António Costa, foi ao tapete e nunca mais se levantou. A coisa atingiu tais proporções épicas que o até agora defensivo António Costa ganhou confiança suficiente para passar o risco e avançar para o território que até agora era considerado “perigoso” para si próprio (e seguro para a Coligação): Sócrates. E deu um murro épico em Passos Coelho ! Virou a pergunta com que tem sido bombardeado até à exaustão até agora, contra o adversário: “se tem tantas saudades do Eng. Sócrates porque é que não o vai agora visitar e debater com ele ?”.
    Pronto, e assim se virou o feitiço contra o feiticeiro. Era assim tão difícil Antonio Costa ? não era pois não ?

  3. MRocha diz:

    «Podemos discordar mas não podemos mudar. É a lógica da televisão e da sociedade do espectáculo.»

    Esta sua afirmação diz tudo sobre o estado da nossa democracia: podemos mudar de presidentes, de governos, de tudo na politica; mas não podemos mudar nada na máquina que os produz. Rendemos-nos? Esclarecedor!

  4. Eurido diz:

    Não só escolheram os temas, como os mantiveram em segredo até ao momento da formulação das perguntas.

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