A diabolização de Sócrates não conhece tréguas

CM Sócrates votação  Há jornais que não conseguem escrever sobre Sócrates com o rigor e o distanciamento que o jornalismo exige. Repare-se nesta chamada de 1.ª página do Correio da Manhã. Para além da fotografia escolhida (captada no momento em que Sócrates entrava em casa vindo da prisão de Évora) em que o “olhar espantado” parece servir ao jornal para ilustrar o “desafio” ao juiz, a frase que a acompanha é um exemplo de manipulação e falta de rigor:

“Sócrates desafia juiz e recusa pedir para votar.” 

O título  não resiste à “prova dos factos” (como agora é costume os jornais fazerem para analisarem os discurso dos políticos). “Recusar” algo é dizer “não” e só se diz “não” como contraponto a dizer “sim”. A frase estaria correcta se para votar Sócrates precisasse de “autorização” ou se o juiz ou outra autoridade judicial tivessem instado Sócrates a pedir-lhes essa autorização. Como nenhuma das hipóteses se verificou, a palavra “recusa” é desajustada e possui, no contexto em que surge, uma conotação claramente negativa.

Não há também qualquer “desafio” porque, ao contrário do que afirma o CM, Sócrates tem apenas o dever de informar as autoridades, cabendo a estas decidir os procedimentos a adoptar. “Informar” não é “pedir autorização”. O CM sabe isso muito bem mas faz parte da estratégia editorial escrever o contrário.

Leia-se o que diz a Comissão Nacional de Eleições (CNE) sobre o assunto:

“Aos cidadãos eleitores detidos em regime de prisão domiciliária não é aplicável o regime especial de votação previsto para os internados em estabelecimento prisional. A estes cidadãos deve ser facultado o acesso à assembleia de voto. A pena de prisão domiciliária não tem associada qualquer sanção acessória de privação de direitos políticos, pelo que o seu exercício não carece de autorização, estando sujeita a mera informação na sequência da qual deve a entidade competente fixar as condições materiais em que a deslocação do detido deve ter lugar.”

E agora o que disseram os advogados de José Sócrates:

“[José Sócrates] exercerá naturalmente esse seu direito (…) e por isso não pedirá autorização alguma, limitando-se a transmitir as informações pertinentes”.

A diabolização de Sócrates não conhece tréguas nem em período eleitoral.

 

 

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4 respostas a A diabolização de Sócrates não conhece tréguas

  1. Não vá algum “amigo da onça” julgar-me mal pelo meu anterior comentário rimado, quero frisar, “urbi e orbi”, que confia na nossa justiça. Nem tudo vai mal em Portugal! Posso é não confiar, como é natural, na infalibilidade dos juízes, seres humanos como nós… Errar é humano!

  2. A justiça em Portugal vai acabar muito mal se os inquisidores de Sócrates não forem parar ao Tarrafal (isto foi só para rimar, mas falando a sério: os juízes não estão acima da lei e devem ser julgados quando não a cumprem. Ou temos de novo, mutatis mutandis, a Santa Inquisição, que tinha todos os direitos e o réu nenhum?…

  3. J. Madeira diz:

    Bem se viu o comportamento do director do “pasquim no tal
    programa da RPT “Prós e Contras” que, se procurou defender
    invocando um “jornalismo” de investigação que diz mandar fazer!?!
    Isto só poderá acabar com pesadas multas que, não tenham em
    consideração os “ses” ou os “talvez” de modo a que o prejuízo
    obrigasse a outro decoro editorial!!!

  4. Pinto de Corim diz:

    como se o jornal(?) em causa merecesse alguma credibilidade. É um aterro sanitário a céu aberto

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