Campanha eleitoral: a fabricação dos ganhadores e dos perdedores

Raramente se assistiu, em anteriores campanhas eleitorais, a uma tão nítida presença e influência das sondagens e dos comentadores. Isso deve-se por um lado, ao facto de as televisões e jornais terem feito parcerias para compra de sondagens diárias do tipo tracking polls,  e ao facto de o comentário político ter ganho em Portugal um estatuto excepcional se compararmos com países europeus.

O efeito conjugado das sondagens e da indústria do comentário faz-se sentir nesta campanha eleitoral quer através dos discursos dos líderes quer da mobilização dos apoiantes, repercutindo-se nas reportagens e nas notícias, levando os repórteres a noticiarem coisas como  a comitiva de quem está a ganhar nas sondagens está animada e motivada e a comitiva de quem está a perder está desanimada e pouco motivada.

As sondagens estão a ser o elemento catalisador em torno do qual a campanha se orienta e as notícias também. Os jornalistas e comentadores potenciam os seus resultados comentando-as repetidamente e alimentando o círculo vicioso que por sua vez se propaga às redes sociais. O “que vai à frente” ( a coligação PàF) é dado como o que tem “o discurso certo” e “a campanha mais profissional, o “perdedor” (o PS) é acusado de fazer uma “má campanha” e qualquer afirmação menos politicamente correcta é apontada como a causa da “derrota”.

Os cidadãos são capturados por esta  dinâmica do “vencedor” e do “vencido” antecipados e as percepções que vão formando contribuem para tornar real aquilo que à partida é ainda e apenas uma probabilidade. Os partidários dos “vencedores” ganham vontade de fortalecer a “vitória”. Os partidários dos “perdedores”, desanimam e ou passam para o lado dos “vencedores” ou ficam mas sentem-se antecipadamente derrotados.

EXpresso 27 Set 2015 2O exemplo mais flagrante deste fenómeno é ilustrado pela edição do Expresso deste sábado, cuja 1.ª página não faz qualquer referência à sua própria sondagem, a única que contraria as trackings polls de outros jornais e televisões, colocando “vencedor” e “vencido” em situação de empate com ligeira vantagem para o “vencido” (o PS) nas outras sondagens.

Mas o Expresso não só “esconde” a sua sondagem, como os títulos de maior destaque da primeira página orientam o leitor no sentido da vitória da coligação. Portas é citado em discurso directo, com uma frase com o verbo no passado que remete para um tempo pós-eleitoral (como quem diz, Costa “substimou a coligação” e por isso perdeu). Costa é citado em discurso indirecto com a frase “Costa chumba governo de direita” com o verbo no tempo presente, assumido pelo jornal como um “facto”. Nas páginas interiores, o tom é idêntico, mesmo quando se apontam críticas ao governo PSD-CDS, o contraponto que é feito é sempre penalizador para António Costa.

Não sou das que pensam, até por formação académica visto ser um tema que tenho estudado, que os jornalistas são movidos por interesses partidários. Antes atribuo o tipo de jornalismo a que estamos a assistir a motivos de natureza profissional relacionados com o sistema dos media na sua relação com os sistema político e económico. As campanhas eleitorais acentuam algumas das perversões dessa relação.

A meu ver, o Expresso escondeu a sua sondagem porque acredita que a coligação vai ganhar e não quis valorizar o resultado da sua sondagem quando já não acredita nele. Entre correr o risco de uma primeira página que na próxima semana poderia ser desmentida, preferiu preparar uma manchete e uma edição que embora no seu conjunto oriente o leitor para uma vitória da coligação, possui suficiente ambiguidade para poder dizer que não errou se o resultado contrariar a vitória da coligação. Os jornalistas gostam de mostrar (sobretudo às suas hierarquias) que acertam nas suas análises. Sobretudo não gostam de ficar isolados relativamente aos restantes jornalistas, apesar da concorrência. O pack journalism” é um fenómeno muito comum na cobertura de campanhas eleitorais.

Acresce que sendo o director do Expresso irmão do líder do PS, a demarcação do jornal face a este era quase inevitável (como aconteceu, embora em menor escala e com consequências menos graves, quando Balsemão foi primeiro-ministro). Também por isso Ricardo Costa tem sido dos comentadores mais críticos da liderança de António Costa, seu irmão.

Com raras excepções (que em Portugal não são tão raras como isso) a ideologia profissional dos jornalistas sobrepõe-se quase sempre à sua ideologia política.  Daí que a minha interpretação do que está a acontecer com esta campanha se funde mais  nas lógicas de funcionamento dos media e do campo jornalístico do que nas opções político-partidárias dos jornalistas.

Naturalmente que esta interpretação não se aplica aos políticos-comentadores, nomeadamente aqueles que a partir de palcos televisivos de grandes audiências, inquinam o espaço púbico com análises comprometidas. Não nos esqueçamos de como Marques Mendes marcou imediatamente o tom da campanha da coligação logo após o debate Passos-Costa nas rádios, em que, a partir do local do mesmo, repetiu à exaustão, primeiro que outros mas logo seguido por todos, que o “lapso” de Costa sobre a segurança social seria o tema da campanha. Assim foi, Passos seguiu  obedientemente o roteiro marcado pelo ex-líder.

Nesta campanha, os líderes em disputa são apenas os actores mais visíveis. Porém, os mais influentes são as sondagens, os comentadores e os jornalistas.

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8 respostas a Campanha eleitoral: a fabricação dos ganhadores e dos perdedores

  1. e soares diz:

    É tudo muito lindo, muito catedrático, mas onde anda a luta de classes ? Será que a articulista a entende acabada ou não lhe dá importância ? O estado, os meios de C.S., as escolas, … de regimes burgueses trabalham para a burguesia, consolidando-lhe o poder e a sua influência cultural sobre a população. Jornais e sondagens são, hoje em dia, uma choldra produzida segundo as regras do capitalismo do máximo lucro (no caso do expresso pressionado pelo mínimo lucro, que não ainda a falência por balsemão ser bilderberg de cú no ar e disponível) com jornalistas que admitem a profissão ao nível da prostituição diária a troco do bmw ou do mini descapotável, duns drinkes de sexta à noite e fêmeas solícitas. O jornalista honesto faz casos de polícia que é o que o director de serviço partidário lhe entrega; ou suplementos de turismo e vinhos; ou traduções das notas que o pentágono distribui para o nyt, que chegam à europa como notícias a dar sem rebuço ou a mínima desconfiança … É tudo muito lindo e catedrático mas o que vivemos em Portugal é mais uma fase da luta de classes em período de profunda crise capitalista, onde os governos são escritórios de negócios das grandes empresas, depois de também o serem os parlamentos onde mandam os lobis e os viciados do complexo militar sionista dos usa, na versão ridícula e pouco profissional de Obama. Pode-se bem dizer que sou um radical e que é com sopinhas doces que se apanham os anjinhos e ficaremos nisto …

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  3. cristof9 diz:

    Os analistas dizem de sua justiça;mas para quem viu o Costa a gaguejar, sentiu que a banha da cobra não estava bem colada e derrapou na convicção!!

  4. manuel.m diz:

    Nem com uma lanterna bem grande encontrará um país Europeu em que ex-líderes de um Partido, agora no papel de comentadores politicos, sejam ouvidos com a reverencia que encontram em Portugal. Mas quanto à Imprensa e aos jornalistas alguns factos curiosos merecem ser lembrados:
    Na Grã-Bretanha dois bilionários são proprietarios de 50% da imprensa escrita. (Respectivamente Lord Rothermere, com 27,8%, e Rupert Murdoch, este com 27,9%). Se considerarmos outros oligarcas, incluindo o Russo Alexander Lebedev, então eles são donos de 77,8% da Imprensa escrita .
    Com a notável excepção do The Guardian e do Daily Mirror, que publicam semanalmente ,(valores de 2013), respectivamente 4,7% e 11,4% da tiragem total, todos os outros 17 títulos são apoiantes dos Conservadores.
    Serão os jornalistas das publicações da direita mercenarios ou serão eles, o que seria muito mais conveniente para a sua pretensa reputação, desprendidos de questões materiais e apenas movidos por fortes convicções ideológicas ?
    E, muito mais importante ainda, tolerariam os seus patrões multi-milionários outra “liberdade para pensar” que não fosse à direita ?
    E que diferença isso faria ?

  5. jose neves diz:

    “Com raras excepções (que em Portugal não são tão raras como isso) a ideologia profissional dos jornalistas sobrepõe-se quase sempre à sua ideologia política. Daí que a minha interpretação do que está a acontecer com esta campanha se funde mais nas lógicas de funcionamento dos media e do campo jornalístico do que nas opções político-partidárias dos jornalistas.”

    Uma vez um conunista classe média do pcp quando o questionava acerca da liberdade num regime comuniata respondeu-se assim; “eu não como liberdade”.
    Ao que e Estrela Serrano chama “a ideologia profissional dos jornalistas” só pode entender-se lógica e racionalmente segundo o entendimento do comunista que me deu a resposta acima; o jornalista hoje entende, ou é obrigado a entender, que em casa e nos restaurantes finos também não se come liberdade, que nas lojas de marca também não se compram fatos para ser par de políticos e empresários com liberdade, que as escolas de elite para os filhos não se pagam com liberdade, que obter e manter o estatuto de “homem público” diariamente no écram das TVs não se consegue com liberdade, etc.
    E, minha cara, quanto mais o país empobrecer, como eles querem, mais se acentua e mais se cava o fosso entre a necessidade do existir e o idealismo de liberdade.

  6. Manuel Branco, a ideologia jornalística é um conceito dos estudos jornalísticos que se refere à cultura jornalística e inclui as regras, os constrangimentos, os critérios editoriais sobre o que é ou não notícia, e tudo o que caracteriza o conceito de “tribo” jornalística, usado por alguns autores anglo-saxónicos.

  7. manuel branco diz:

    Não sei o que seja isso de ideologia profissional dos jornalistas. Concordo no entanto com o que Oliveira Martins escreveu sobre a espécie há mais de um século.

    O Expresso optou, eles lá sabem porquê, por ser um folheto de campanha. Palpita-me que os fracos lucros, a net e a dependência da publicidade explicam muito. O que diz da primeira página pode bem ser isso – a convicção de que a coligação vai ganhar – como pode ser o incómodo de terem um contratado que não se ajusta ao que a redacção pretende. Consta por aí uma história relativa a Oeiras com aventais à mistura.

    Quanto aos manos Costa, não faço a mínima ideia de como se dão. Tenho no entanto a impressão que anda pelas bandas de Abel e Caim. Para o mais novo deve ser um desconsolo ter como actividade profissional passar o tempo a falar do mais velho. Se este emigrasse para a Nova Zelândia devia dar jeito. Mas isto são apenas pensamentos pérfidos, admito.

  8. raul oliveira diz:

    Realmente foi feita uma excelente avaliação, esta Campanhã está sendo feita pelos jornalistas e alguns comentadores. É lamentavel. A política é para os políticos.

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