Lições e mitos da campanha

Costa AltisOs analistas parecem ter já muitas certezas sobre as eleições de ontem quanto à justificação dos seus resultados. Mas o tempo é ainda curto para tantas certezas e algumas nunca poderemos confirmar. Vejamos:

  1. A “vitória” das sondagens:
  • Até às tracking-polls diárias, as sondagens davam um empate técnico com vantagem para o PS. A partir da primeira tracking-poll em que a coligação PàF surgiu à frente do PS, nunca mais a situação se inverteu. A dinâmica criada pela subida da coligação foi uma bola de neve imparável e aquilo que era uma possibilidade tornou-se realidade.
  • Não foi em vão que os portugueses foram confrontados com esse dado, através de 4 sondagens diárias – Aximage, Intercampus, Eurosondagem; Universidade Católica.  Durante 15 dias, 24 horas sobre 24 horas, essas sondagens foram divulgadas em regime de parceria por cerca de 14  meios – entre canais generalistas, canais informativos do cabo, rádios e jornais nacionais para além das diversas plataformas para onde cada um se expande.
  • É por demais evidente que a dinâmica assim criada levaria à convicção de que a vitória da coligação PaF era um dado adquirido e um estímulo para que mais pessoas se juntassem à vitória.
  • Para além do efeito bola de neve, as tracking-polls tiveram também um papel  de ocultação do vazio programático dos partidos da coligação PaF e do irrealismo das propostas dos partidos à esquerda do PS.
  • É claro que nunca saberemos o que teria acontecido sem as tracking-polls, mas não é difícil crer que o seu efeito não só beneficiou a candidatura que primeiro surgiu à frente como desviou a atenção dos eleitores de discussões mais substantivas.

2. A “inevitável” demissão de António Costa

  • António Costa não tem razões para se demitir. O que não significa que não possa ser desafiado por quem se encontre em melhores condições para conduzir o partido. Ter desafiado o então líder, António José Seguro, em eleições que venceu folgadamente, não é, num partido democrático, um “defeito” ou uma culpa que tenha de expiar, como parece depreender-se de declarações de alguns socialistas e comentadores. Defeito é conspirar em reuniões “secretas” para  apear o líder, em vez de o enfrentar democráticamente, como no passado aconteceu, por exemplo, a Mário Soares.
  • António Costa perdeu esta eleição. é um facto,  e o seu maior erro foi ter pensado que o País estaria interessado em ter, pela primeira vez, um programa eleitoral quantificado, transparente e credível. Talvez António Costa tenha feito história e daqui em diante mais nenhum partido ou coligação possa apresentar-se a eleições como fizeram o PSD e o CDS. Só por isso já valeu a pena tê-lo feito.

3. A guinada à esquerda

  • Este é outro mito da campanha. António Costa não podia “põr a mão por baixo da coligação”, afirmando que apoiaria o seu orçamento depois desta afirmar que prosseguiria no mesmo rumo e que o seu programa eleitoral era o PEC entregue em Bruxelas. Como não podia também dizer a Passos, sem mais, que estaria com ele à mesa no dia seguinte para negociar a segurança social.
  • Nos debates que teve com Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, foi evidente que Costa se demarca do radicalismo de ambos relativamente às questões europeias e ao facilitismo de tudo contestar sem alternativa exequível, tendo em conta as condições e os constrangimentos do país. Mas isso não evitou que a coligação e os seus comentadores lhe colassem a etiqueta de “radical”, coisa que não resistiria a uma análise mínima que fosse mas que ninguém esteve interessado em fazer.

Em suma e por agora: o PS tem, de facto, uma reflexão a fazer. Desde logo, reforçar a autoridade de António Costa para que ele e o partido possam encarar os difíceis desafios que têm pela frente. Embrenharem-se agora em lutas internas de ajustes de contas representará um verdadeiro haraquiri para o PS e para quem enveredar por esse caminho.

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6 respostas a Lições e mitos da campanha

  1. Prezado(a) cristofg: como acabei de aterrar vindo de outro planeta, muito lhe agradeço que me ensine o que é um “tudologo”.
    Relativamente às “lições e mitos”: mais do que um haraquiri, a atitude ( lutas internas de ajuste de contas ) seria ( será ? ) um inestimátel serviço às correntes políticas conservadoras. Exatamente o contrário do declarado e enfaticamente pretendido pelo Partido Socialista durante a campanha.

  2. antonio josé nascimento ribeiro diz:

    Estrela Serrano. Como militante socialista, e apoiante de Costa, quero lhe dizer que o PS teve uma enorme derrota, por sua culpa. O Marketing político e a qualidade de algumas pessoas que rodearam Costa, foram escolhas desastrosas. A falta de percepção do actual mundo mediatizado, onde a direita tem um enorme grau de especialização e uma posição de domínio, foi de estarrecer. Não se pode partir para um combate desta dimensão com estas fragilidades. Costa apresentou um programa para a década. Falhou na mobilização dos Portugueses. Lembrei-me do desafio de John Kennedy aos americanos, no meio de uma espectacular derrota na corrida espacial, de colocar um homem na lua até ao final da década de 70 (isto dito em 1962). Há lideres que inspiram, por isso são mortos! Há quem não queira morrer, o que é legítimo.

  3. Concordo inteiramente.
    Mas é preciso corrigir os erros e encontrar uma maneira eficaz de furar o bloqueio que a Direita conseguiu formar com a Comunicação Social toda arregimentada a seu favor.
    É preciso encontrar outro tipo de estratégia comunicacional e colocar as mãos em meios para difundir eficazmente a mensagem.
    E é preciso matreirice e habilidade para lidar e desmontar mentirosos e vigaristas, porque é esse o tipo de adversário que está aí para ser vencido, tanto à Direita como à Esquerda.

  4. “Tudólogos”? e quem comenta os “tudólogos” o que é?

  5. Ana diz:

    Concordo com tudo excepto o que diz sobre , no futuro, os partidos terem que se apresentar a eleições com um programa credível, quantificado etc. Pelo contrárrio, penso que o que o povo gosta mesmo é de ‘sound bytes’ e frases feitas , vazias de ideias. Lamentávelmente, é o que posso concluir perante os resultados de ontem.

  6. cristof9 diz:

    Os tudologos fazem bem em reflectir sobre tudo o que comentaram e confrontarem com os resultados reais. Aprendiam, tornavam-se melhores e ajudavam os politicos e leitores a serem melhores. Tanta demagogia que se descobriu, vendo os resultados eleitorais!!

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