A conferência de Sócrates

O jornal Público traz hoje uma peça sobre o caso  Lava Jato, no Brasil, na qual se pode ler o seguinte:

“[ A corrupção] da Lava Jato (…) é levada a cabo por uma task-force de procuradores do Ministério Público e polícias federais comandados pelo juiz Sergio Moro, especializado em crimes financeiros e lavagem de dinheiro e um estudioso da Operação Mãos Limpas em Itália, cujas estratégias tem procurado aplicar na condução da Lava Jato. Uma delas é a fuga de depoimentos e provas para a imprensa e a ampla exposição mediática do processo ­– reforçada pela disseminação nas redes sociais –, garantindo o apoio da opinião pública e impedindo as figuras investigadas de travar o trabalho judicial.(…)”.

Ao ler o excerto acima, verifico que também em Portugal o caso italiano e agora o brasileiro, fazem escola no caso Marquês. De facto, quem em Portugal ao ler o Correio da Manhã, o i, o Sol e alguns outros, não se sente familiarizado com a descrição  do “modelo” Mãos Limpas e agora  Lava Jato feita no Público? Não é verdade que diariamente assistimos no caso Marquês a “fuga de depoimentos e provas para a imprensa e a ampla exposição mediática do processo – reforçada pela disseminação nas redes sociais –, garantindo o apoio da opinião pública e impedindo as figuras investigadas de travar o trabalho judicial?”

José Sócrates tenta contrapôr a esse imparável caudal de elementos contra si, vindos do interior do processo em condições que referi aqui, a sua capacidade de mobilizar os media e os seus muitos amigos e apoiantes para iniciativas de “contra-ataque”, como a conferência que proferiu em Vila Velha de Ródão no passado domingo, transmitida em directo pelas três televisões informativas e que foi tema de abertura dos telejornais nesse mesmo dia.

Alguns comentadores tentaram menorizar o conteúdo da intervenção de Sócrates, ouvindo até coisas que ele não disse, como a alegada comparação do seu caso a Luati Beirão, coisa que ele não fez (comparou sim os sistemas de justiça português e angolano). Outros, comentaram que não havia nada de novo no seu discurso, revelando uma notória incapacidade para irem além  da mediocridade e da banalidade do discurso corrente sobre a justiça.

Ora, Sócrates fez uma análise muito sólida e fundamentada sobre a justiça e as suas perversões, apontando de maneira directa e clara os seus entorses num estado que se diz de direito democrático. Mas os comentadores queriam ouvi-lo falar das questões que os jornais trazem sobre a sua “vida luxuosa” e sobre as convicções do juiz e do procurador sobre a origem do seu dinheiro. O resto do que Sócrates possa dizer não lhes interessa, ainda que sejam verdades e  impliquem coisas tão importantes como o funcionamento da justiça e a sua relação com a política e com os media.

E é aqui que vem à colacção o artigo do Público que cito acima: tal como aos juízes italiano e brasileiro, também aos magistrados portugueses que tratam do processo Marquês o que interessa é garantirem o apoio da opinião pública, usando para isso os mesmos métodos:

“fuga de depoimentos e provas para a imprensa e a ampla exposição mediática do processo – reforçada pela disseminação nas redes sociais –, garantindo o apoio da opinião pública e impedindo-[Sócrates] de travar o trabalho judicial.(…)”.

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