A gritaria dos debates

briga-9399Nos debates políticos, que enchem os écrans das televisões há um ambiente de crispação como não se via há muitos anos. Os mais crispados são quase sempre deputados ou dirigentes  do PSD e do CDS e comentadores, incluindo jornalistas, que estão contra um governo de esquerda chefiado por António Costa.

A agravar a situação está o facto de na gritaria dos debates serem quase sempre os mesmos, que repetem à exaustão os mesmos argumentos. Esta quinta-feira, os cidadãos incautos que tenham sintonizado os canais informativos do cabo apanharam Paulo Rangel, do PSD,  na RTP1 e na TVI 24 e puderam constatar o destempero que tomou conta do reputado deputado. Grita que se desunha, atropela os que têm o azar de o apanhar pela frente. Na RTP1 teve Nuno Melo a competir com ele no atropelo dos outros três, bem mais cordatos e pacientes que eles: Pedro Delgado Alves, do PS, João Ferreira, do PCP, e Pedro Filipe Soares, do Bloco. Estes falaram a custo e mal abriam a boca logo os outros dois lhes caíam em cima a dizerem que ganharam as eleições e que o PCP e o Bloco são contra o euro e a Europa. O moderador, Carlos Daniel, viu-se grego (salvo seja) para impôr a ordem e quando não o conseguia falava por cima deles.

Na TVI 24, desta vez com Pedro Nuno Santos do PS e Fernando Rosas do Bloco, Paulo Rangel manteve o ritmo e ouviu Fernando Rosas dizer-lhe que “está muito nervoso”, ao que Rangel se apressou a responder que não, sinal de que está mesmo muito nervoso. Com grande paciência, Pedro Nuno Santos não deixou passar o alarmismo de Rangel quanto aos mercados e ao perigo de um governo de esquerda.

Nestes e noutros debates, os debatentes discutem o governo – o velho, o novo e o próximo – fazem vaticínios, levantam fantasmas, auguram o pior. Uns, entricheirados nas suas posições, repetem o discurso de que “em democracia governa quem ganha as eleições”. Outros, mais flexíveis, começaram a perceber que, afinal, o Parlamento tem a última palavra e  conformam-se com a previsível queda do recém-nascido governo, afiando as facas para o próximo.

No meio da gritaria, destaca-se Manuela Ferreira Leite, na TVI24 (com Paulo Magalhães meio divertido com o destempero da respeitável senhora), que depois de andar 4 anos a arrasar a coligação perdeu as estribeiras  e acha que afinal a coligação tem que governar, custe o que custar, e que  os  partidos da esquerda tinham era que fazer oposição e obrigar a coligação a fazer o que eles quisessem. Não admira, se o Presidente é o primeiro a espumar de raiva contra um governo de esquerda, porque não o poderão fazer os seus apoiantes?

Está tudo doido, dizem alguns. Pode ser que sim. mas há duas coisas que podemos concluir: a primeira, é que afinal a democracia portuguesa ainda não está assim tão madura e muitos não sabiam até agora que o governo depende do Parlamento. A segunda, é a de que no meio da tempestade a pessoa mais calma é António Costa que continua a trabalhar numa solução de governo resistindo às pressões e aos insultos.

No fim de contas, Costa, o tão proclamado vencido,  é o único que não se deixou capturar pelo ódio e pelo desespero.  Não perdeu a cabeça. É um bom sinal para o futuro. Precisamos de calma e de bom senso. Não daqueles que perdem o norte à primeira contrariedade.

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3 respostas a A gritaria dos debates

  1. Maria Santos diz:

    O sectarismo e a parcialidade são sempre condenáveis e neste caso tendo ouvido os debates em causa, pareceu-me haver histerismo de ambas as partes e talvez até mais de fernando Rosas, perfeitamente tendencioso. Seria bom para todos, que se analisassem os factos e os discursos com maior isenção e idoneidade intelectual…

  2. José Novais diz:

    Efetivamente, temos vindo a assistir a debates televisivos onde a gritaria e o histerismo se sobrepõem à troca de ideias e argumentos. No entanto, por vezes, ainda conseguimos assistir a alguns debates onde a urbanidade prevalece. Esta semana, na noite da passada 4ª feira, decorreu um debate na TVI 24, moderado pelo Paulo Magalhães e com a participação da socialista Susana Amador e da centrista Ana Rita Bessa, onde a serenidade e a lucidez da argumentação prevaleceram, permitindo identificar e clarificar as diferenças de opinião e de posição destas deputadas. Pena é que estas duas políticas não sejam mais vezes solicitadas a participarem, pois seria uma oportunidade para por termo à “gritaria dos debates”.

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