O lamento do “estimado óvinte”

rádio no arEsta manhã, num dos fóruns radiofónicos em que o povo dá largas aos seus pensamentos, um dos participantes queixava-se de que nunca tinha ouvido dizer que as eleições legislativas eram para eleger deputados. Lamentava-se o “estimado óvinte” de, após tantos anos a votar, só agora lhe dizerem que o voto dele não era para eleger o primeiro-ministro.

O problema não é aquele cidadão não saber que os primeiros-ministros e os governos não são eleitos e que a única eleição uninominal em que se elege uma pessoa para um cargo é a eleição presidencial que elege o presidente da República. O facto é que aquele cidadão não está só. Também o ainda primeiro-ministro, o seu vice e os dirigentes dos seus dois partidos perante a hipótese de António Costa ser indigitado primeiro-ministro continuam a falar de “ilegitimidade” de um governo dirigido pelo líder do segundo partido mais votado. Fazem-no para confundir pessoas como o cidadão que telefonou para a rádio a manifestar o seu protesto por ninguém o ter informado a tempo de saber para que serviria o seu voto.

Mas o tal cidadão tem também a companhia de muitos jornalistas e jornaleiros que continuam a dizer que o ” povo” votou em Passos para primeiro-ministro e a falar da “ilegitimidade” de qualquer solução que não passe pela coligação de direita que ganhou a eleição. Verdade seja dita que passada a  gritaria inicial contra o “golpe” de que acusam António Costa por conseguir o apoio da maioria parlamentar que PSD e CDS não conseguiram, foram ler a Constituição e ouvir quem lhes explicasse como funciona o sistema político português e lá se convenceram que afinal indigitar Costa é legítimo e constitucional.

Mas Passos Coelho, ao menos, é coerente. Ela não sabia que um governo precisa de apoio parlamentar e agora que descobriu que, afinal, mesmo ganhando as eleições pode não conseguir formar governo quer mudar a Constituição, já que ela permite tão “injusta” situação.  O problema é que para isso também é precisa uma maioria que ele não tem. Daí que a alternativa de Passos só seja praticável  com um golpe de Estado.

 

Esta entrada foi publicada em Governo, Política, Rádio, Sociedade. ligação permanente.

4 respostas a O lamento do “estimado óvinte”

  1. João Pedro Lopes diz:

    Nos tempos atuais, a ignorância é uma opção. Já acho estranho que seja motivo para alguém se vangloriar num programa de rádio.

  2. cristof9 diz:

    Excelente. E espanta-me que politicamente não esteja a ser mais vezes argumentado, um facto tão óbvio. Não se conhece nenhuma entidade (cavaco, TC..) que tenha que validar os votos dos deputados entre validos a não validos

  3. J. Madeira diz:

    Para lá da ignorância de alguns eleitores, ainda há analfabetos no que à política
    concerne pois, estranho é ver dótores, constitucionalistas e outros mais assim
    pensarem! Verdade seja dita, os pequenos partidos sempre colocaram a questão
    nos devidos termos, isto é; votamos para eleger deputados para a A.R.!
    Pior é o que se tem assistido, há comentadeiros que, até sabem o que pensavam
    oa eleitores quando puseram a cruz numa determinada sigla partidária … dizem
    os espertos que não queriam o PS a falar com a outra esquerda, sem prévio anún-
    cio de o ir fazer !?! Desde que assumiu a liderança do PS sempre ouvi o António
    Costa dizer que o arco da governação não devia existir e, que falaria com todos os
    partidos mesmo que obtivesse uma maioria!!!

  4. carlosalvares diz:

    Quando das eleições do dia 4, quinze ou vinte dias antes, ninguém pensava que o PS não tivesse a maioria dos votos. Tal era a convicção que o próprio António Costa, “ingénua e confiadamente” (os acontecimentos subsequentes vieram a demonstrar tal facto), deu a conhecer o seu programa de governo, “mesmo antes do acto eleitoral”. O que sucedeu ,,,sabemos. A coligação PàF, manhosa e oportunista, baseada nesse programa, fez uma propaganda intensa e bem feita, que conseguiu inverter o sentido de voto vigente, obtendo assim a maioria.

    Só que Costa, batido nestas manobras da política, viu o logro em que tinha caído e, inteligente, procurou emendar o erro cometido. Para isso, utilizou a oportunidade que a Constituição lhe dava, por ter a maioria dos parlamentares a seu favor, para exigir a chefia do governo. Foi um pandemónio com insultos, provocações, ditos de baixo nível vindos, até, de membros do Governo destituído, numa demonstração de mau perder e falta de princípios democráticos.

    Um dos dirigentes do PàF até, demonstrando radicalismo ideológico felizmente já fora de uso, descaradamente, foi à televisão acusar de “golpista” quem se limitara a seguir o que está na Constituição. Atitude aliás, em consonância com a do ex-primeiro ministro que, certamente levado pelo temperamento e não pela inteligência, chegou a sugerir que fosse dissolvida a Constituição. Procedimento que, se fosse levado a sério, abriria um precedente inqualificável, que nos exporia a público ridículo – – um País que altera a Constituição, quando o seu cumprimento não agrada ao Governo. É difícil de admitir.

    Carlos Patrício Álvares

    No dia 17 de novembro de 2015 às 20:11, VAI E VEM escreveu:

    > estrelaserrano@gmail.com posted: “Esta manhã, num dos fóruns radiofónicos > em que o povo dá largas aos seus pensamentos, um dos participantes > queixava-se de que nunca tinha ouvido dizer que as eleições legislativas > eram para eleger deputados. Lamentava-se o “estimado óvinte” de, após > tanto”

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