O debate foi mau demais de se ver


José Sócrates foi preso há um ano. As televisões assinalaram a data com declarações do próprio, por escrito (a SIC) ou verbalmente (a TVI em declarações  recolhidas directamente) e com debates entre juristas e jornalistas, alguns dos quais escolhidos segundo critérios difíceis de perceber.

Nos jornais não têm faltado também notícias sobre o processo Marquês, algumas  pitorescas como as que dão conta das discordâncias entre o inspector tributário Paulo Silva e o titular do processo, o procurador do Ministério Público Rosário Teixeira. Para compôr o ramalhete também há sinais de que o citado procurador e o juiz de instrução, Carlos Alexandre, se têm desentendido sobre medidas de coacção aplicadas ou a aplicar a José Sócrates.

E assim o processo vai andando ou vai fingindo que anda, sem acusação nem factos com provas conhecidas, ao mesmo tempo que a fonte onde todos vão beber as novidades  – o Correio da Manhã e o seu canal de televisão – CMTV –  são abruptamente caladas pelo Tribunal da Relação, bem como  todos os títulos do grupo Cofina.

Digno de nota negativa foi o debate desta sexta-feira na TVI 24,  no qual o advogado de Sócrates, João Araújo, confrontou o jornalista Fernando Esteves, da revista Sábado e autor do livro “Cercado” sobre José Sócrates, com conversas telefónicas constantes do processo, entre este jornalista e Afonso Camões, director do Jornal de Notícias e “amigo de Sócrates” que, a existirem, mostram a familiaridade (e a promiscuidade)  do Ministério Público e do juiz Carlos Alexandre com alguns jornalistas, neste caso, segundo João Araújo  com o próprio Fernando Esteves que negou a conversa citada pelo advogado, revelando por sua vez o conteúdo de outras escutas telefónicas entre Afonso Camões e José Sócrates.

Foi um momento mau de se ver, não apenas pelo que revela de promiscuidade entre o jornalismo e a justiça, mas sobretudo pela facilidade com que se envolvem pessoas ausentes do debate, no caso Afonso Camões, impossibilitadas de se defenderem perante quem assistia àquela lavagem de roupa suja.

Dá-se o caso de este episódio coincidir com a revelação das declarações do ex-director das secretas, Silva Carvalho, que em tribunal declarou que “Noventa por cento do modus operandi dos serviços de informações é ilegal” e que ele “bem sabe  como é que os serviços de informações podem usar os jornalistas e controlar órgãos de comunicação social”.

É caso para dizer que em matéria de justiça e segurança o País precisa de uma purga. Mas em matéria de algum jornalismo  a situação também é de molde a  inspirar cuidados.

Esta entrada foi publicada em Jornalismo, Justiça, Política com as etiquetas . ligação permanente.

2 respostas a O debate foi mau demais de se ver

  1. carlosalvares diz:

    Vi o debate e, na altura, considerei estranha a troca de palavras entre o advogado de José Sócrates, João Araújo,e Fernando Esteves, jornalista (?). Em tom desadequado, alterado e palavreado contundente, F.E. defendia-se dos reparos que lhe eram feitos `acerca de um livro que escreveu sobre Sócrates. Pensando melhor, compreendi tudo. O livro não teve o êxito esperado e, frustrado mas combativo e oportunista aproveitara o debate, para mais televisivo, para se dar a conhecer e, indirectamente, publicitar o livro que escreveu. Enfim, como se diz, “os fins justificam os meios”. Seja. É o Mundo em que temos de viver. Carlos Patrício Álvares

  2. ViriatoaPedrada diz:

    Sócrates e o julgamento.
    O objetivo nunca foi levar Sócrates a julgamento, porque sabem bem que nunca vão encontrar motivo para tal, mas antes proceder ao seu linchamento político e com isso arrastar o PS. A investigação vai ter novos desenvolvimentos la para daqui a 4 anos! Aí 3 meses antes das eleições! Até lá o Sócrates fica em banho maria! Foi assim com o Freeport, Cova da Beira e Escutas, onde nunca foi arguido, mas que encheu páginas de jornais.
    “Operação Marquês. Ainda faltam ouvir 20 testemunhas, ler mil documentos e analisar 5.540.127 ficheiros informáticos.
    A investigação a José Sócrates não deve ser concluída tão cedo. Procurador Rosário Teixeira pediu ao DCIAP mais tempo para investigar, face ao muito que ainda está por analisar.
    A acusação do caso Sócrates pode demorar. A procuradora-geral Joana Marques Vidal quer que a equipa de quatro procuradores que investiga o caso conclua o despacho de encerramento de inquérito o mais rapidamente possível, mas o procurador Rosário Teixeira diz não estar em condições de o fazer” Por: Observador

    Sócrates vai continuar a ser investigado até morrer e o MP vai saltar de caso em caso, baseado em suposições, imaginações e invenções. O objetivo parece ser vingança,mas também um aviso aos políticos, que não devem meter-se com as vacas sagradas. Os jornais aproveitam para alimentar a novela e vender papel, afim de ganhar uns trocos, pois a vida está difícil.

    José Sócrates acabou, enquanto primeiro-ministro, com alguns dos mais chocantes privilégios que havia na sociedade portuguesa, sobretudo na política e na justiça. Isso valeu-lhe ódios de morte. Foi ele quem, por exemplo, impediu o atual Presidente da República de acumular as pensões de reforma com o vencimento de presidente. “Na justiça reduziu as férias de três meses a um e acabou com o subsídio de renda de casa no valor de 775 euros, além de outros privilégios”. A raiva com que alguns dirigentes sindicais dos juízes e dos procuradores se referiam ao primeiro-ministro José Sócrates evidenciava uma coisa: a de que, se um dia, ele caísse nas malhas da justiça iria pagar caro as suas audácias. Por isso, tenho muitas dúvidas de que o antigo primeiro-ministro esteja a ser alvo de um tratamento proporcional e adequado aos fins constitucionais da justiça num estado civilizado.” Por: Marinho e Pinto, Eurodeputado: 24 de novembro de 2014.
    http://viriatoapedrada.blogspot.pt/2014/07/a-maior-cabala-e-mentira-depois-de-74.html

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s