Justiça e media: a promiscuidade no seu pior

Habituados que estamos à promiscuidade entre a Justiça e alguns órgãos de comunicação social, não podemos dizer que estranhamos mais uma manifestação da aliança entre estes dois sectores. Refiro-me à insólida transmissão pela CMTV, com reprodução no jornal do grupo – Correio da Manhã – do interrogatório judicial no DCIAP do ex-ministro Miguel Macedo,  acusado no caso dos “vistos Gold”.

As imagens mostram o ex-ministro a ser interrogado por uma procuradora, ouvindo-se quer as perguntas quer as respostas. Essas imagens são parte de uma reportagem da “especialista” da casa, a jornalista Tânia Laranjo, cujas intervenções reforçam, como é seu costume, as posições do  Ministério Público.

Na peça da CMTV não é referida a proveniência das imagens, nem aliás seria necessário, já que não é suposto que a CMTV ou o Correio da Manhã tenham colocado na sala do interrogatório uma câmara escondida. Há, aliás, um momento insólito nas imagens, quando alguém que parece ser um funcionário da casa (apenas se vêem as calças de ganga, mangas arregaçadas e camisa desalinhada) entra na sala à procura de dossiês empilhados numa mesa atrás da cadeira onde se senta Miguel Macedo e deixa cair alguns, perturbando o interrogatório. Macedo parece incomodado com o barulho e olha para trás para ver do que se trata.

Segundo informação da repórter Tânia Laranjo no início da peça,  o interrogatório de Miguel Macedo decorreu “num anexo” do DCIAP e durou 2 horas. Pelo que se viu com a entrada do funcionário a sala do interrogatório era de acesso fácil, pelo menos o citado funcionário (seria um arrumador?) não pediu licença para entrar.

Não sendo admissível que o Ministério Público tenha cedido a gravação à CMTV ou ao Correio da Manhã, quem sabe se alguém se escondeu nalgum canto do anexo para captar as imagens.  Há, porém, uma pista reveladora de que assim não é: é que nunca se vê a procuradora que interroga Miguel Macedo. Apenas este e o seu advogado surgem nas imagens e sempre do mesmo ângulo. As imagens só podem pois ser do DCIAP  (que naturalmente grava as inquirições). Como titular do inquérito o MP sabe quem se encontra na posse das imagens e não lhe será difícil saber quem as cedeu ao Correio da Manhã e ao seu canal de televisão.

A  promiscuidade entre o Ministério Público e algum jornalismo já tinha atingido máximos no processo Marquês. Parecia não ser possível ir ainda mais longe. Mas as imagens  exibidas pela CMTV, de Miguel Macedo a ser interrogado num “anexo” ao DCIAP, tipo armazém de dossiês, onde um funcionário entra e sai descuidadamente para tirar pastas que depois deixa cair ruidosamente, é qualquer coisa de surreal.

Que pessoas como Rui Pereira, ex-ministro da Administração Interna, que assistiram à exibição daquilo na CMTV na qualidade de comentadores, não se tenham demarcado daquela nojeira, é de bradar aos céus.

A Procuradoria-Geral abriu um inquérito para apurar os responsáveis pela divulgação das imagens. Mais um para arquivar.

 

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9 respostas a Justiça e media: a promiscuidade no seu pior

  1. eduardo g. ramos diz:

    E a “figura” do Damaso na RTP, afirmando que “optaram” pelo “interesse público” . conheço uma palavra para a definir: execrável” !

  2. Pingback: Justiça e media: o grau zero da promiscuidade

  3. carlosalvares diz:

    Palavras para quê….? INCRÍVEL ! Nem num país do terceiro mundo…

  4. Quem recebeu e quanto recebeu o “informador” que cedeu as gravações? Quem pagou, como é hábito, já todos sabemos quem foi.

  5. Manuel diz:

    “Uma mão lava a outra”: esta a relação de promiscuidade (corrupção) entre o Ministério Público português e alguns payers da comunicação social.
    Sim, “uma mão lava a outra” e aqui fica um bom exemplo, que rende milhões de euros a troco de alguma “coisa”, pois toda a gente sabe que “não existem almoços grátis”: a “Justiça” em Portugal não é igual para todos, este é um exemplo descarado disso: http://lenocinio169.blogspot.pt/

  6. cristof9 diz:

    A pratica anglosaxonica mostra que esta agressividade dos media não prejudica a justiça; talvez seja exagero pensar que a justiça em Portugal é melhor e mais eficiente que nos EUA ou Inglaterra.

  7. Luis Devesa diz:

    Isto acontece simplesmente porque a justiça em portugal não funciona! Existem alguns anjinhos (jornalista) que acreditam que podem fazer coisas boas pelo país. Felizmente a “única coisa” que os políticos podem fazer contra eles é pôr uma mordaça no canal que transmite estas noticias. Onde é que já ouvi isto??? …. sem comentários!!!!
    O problema não é o DCIAP ou a CMTV, o problema é a justiça que não funciona e deixa passar em claro estes vergonhosos atores politicos. Eles enriquecem às custas da promiscuidade que existe entre a politica e a justiça… essa sim é bem mais grave!
    A justiça que temos protege estes moluscos de oito patas o que leva a que aconteçam situações destas.
    Por enquanto, a liberdade de expressão é o que nos resta para termos esperança que a corrupção um dia acabará.
    Luis Devesa

  8. Imagino que a nova ministra da Justiça, que é “da casa”, saiba bem por onde pegar este “touro”.
    E ou ela pega este ” touro” pelos cornos ou não sei onde isto vai parar!
    A bem de todos nós é bom que a senhora ministra seja tão honesta e capaz como dizem, e que além disso seja mulher de coragem, para acabar de vez com semelhante chiqueiro onde chafurdam tantos suínos. E simplesmente reformar meio Ministério Público compulsivamente, já que não se podem despedir, e formar gente nova! E mandar os novos estagiar para países onde se investiga capazmente antes de prender, em vez de prender para investigar! Enfim, limpar tudo com lixívia industrial, caramba !

  9. carlosalvares diz:

    Mais um artigo a confirmar a ideia (má) que tenho do DCIAP. Depois os inquéritos da P.G. da República, cujo resultado tarda ou não aparece, igualmente causa estranheza e…. preocupação. C.P.Álvares

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