Mário Centeno e os “politicões”

Mário Centeno AREra fácil perceber que os ministros-académicos estariam na mira dos ataques dos “políticões” que agora passaram para a oposição. Chamo-lhes “politicões” para não se confundirem com os políticos a sério, que os há em todas as bancadas parlamentares. Os “politicões” são uma espécie intermédia, não são bem políticos, no que a política tem de conhecimento, experiência, arte, técnica e carisma. Os “politicões” são, no fundo, os que se servem da política para fazer politiquice.

Dos ministros-académicos espera-se que no governo coloquem o seu saber e conhecimentos científicos ao serviço das políticas do governo a que aceitaram pertencer. O governo de António Costa integra, a par de políticos experientes, um conjunto de académicos de grande gabarito que constituem uma mais-valia na actividade do governo se não se deixarem cair na tentação e no enredo do jogo político puro e do dichote parlamentar gratuito, muito apreciado pelos media mas descredibilizador do trabalho sério.

Era previsível que Mário Centeno seria o alvo predilecto da oposição, como se viu logo na campanha eleitoral, com Paulo Portas a acusá-lo de ter caído de pára-quedas no PS vindo directamente de Oxford. Havia naquele ataque um quase desprezo de Portas (tido como um político profissional, especialista em sound bites) por um outsider com a veleidade de chegar a ministro e logo para uma pasta em que ele, Portas, também sempre quis meter o bedelho. Na discussão do programa do governo, Cecília Meireles seguiu a cartilha do chefe e tentou embaraçar Centeno e o seu cenário macroeconómico, a que chamou  “muito científico”.

Por seu turno, o PSD foi buscar um ex-assessor de Passos Coelho, Miguel Morgado, para fazer chicana, depois do próprio Passos e do grande intelectual do partido, Marco António Costa, terem chorado a rir com as respostas de Centeno sobre o Novo Banco.

É óbvio que o novo ministro das Finanças, como a maior parte dos académicos , não estão treinados no tipo de discussão que ocorre nos debates parlamentares em que o que conta é a capacidade de resposta curta e incisiva, “assassina” quanto baste, de modo a pôr o adversário KO. Geralmente os “politicões” são bons nisso. Mário Centeno, manifestamente, não o é, nem precisa de o ser.

Lembremos-nos de Vítor Gaspar, nos seus discursos e intervenções iniciais. Primeiro, os jornalistas  estranharam o estilo mas  depois “entranharam” o homem  o estilo. Vítor Gaspar fez  do País o seu laboratório pessoal de experimentação de teorias bebidas nos tempos em que era funcionário europeu, para o que contou  com o apoio de um primeiro-ministro impreparado e dos seus colegas da troika. Gaspar tinha um confessado desprezo pelos políticos como demonstrou aqui.

Mário Centeno devia ler tudo o que se escreveu sobre Vítor Gaspar para não cometer os mesmos erros embora em sentido contrário. Sendo afável e simpático, Centeno não pode cair na tentação de querer ser mais um político, porque não o sendo, corre o risco de ser um político a mais. As funções de ministro das finanças dão-lhe palco permanente, a nível nacional e internacional. Qualquer palavra fora do tempo e do espaço enfraquece a sua posição e permite que os “politicões” o ataquem por não ser tão “bom” como eles no jogo parlamentar. Sem deixar a afabilidade e a cortesia que tem revelado, Centeno deve centrar-se nas questões concretas da sua área de governação e deixar as respostas políticas aos políticos e aos politicões.

 

 

 

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5 respostas a Mário Centeno e os “politicões”

  1. Pingback: Mário Centeno: aquele seu ar infeliz não é defeito, é feitio… | VAI E VEM

  2. Carlos Guerreiro diz:

    A resposta do Centeno relativamente ao Novo Banco deu vontade de rir pois parecia um copy e paste da resposta do governo mais neoliberal desde o 25 de Abril sobre o mesmo assunto… A resposta do Centeno ao Miguel Morgado foi uma versão norte coreana do tiro no pé (com a utilização de de artilharia anti-aérea), acabou com a pouca credibilidade que ainda dispunha (depois das revisões do seu cenário macroeconómico, em Agosto o emprego gerado subiu de 15.000 para 207.000 por magia, até o Louça no Público desmascarou o Centeno…). Relativamente aos politicões, recordo que eles representam o povo que os elegeu pelo que têm a mesma legitimidade que os que passam os amanhãs a cantar, defendendo uma ideologia que tantas alegrias tem dado à humanidade….

  3. Feelggod diz:

    Que Deus me perdoe, mas eu olho para o Prof Dr, Centeno e lembro-me do… dr. Pardal. Felizmente não me faz lembrar o Pateta.

  4. cristof9 diz:

    Os academicos, têm dado excelentes provas no microcosmos onde estão protegidos- CES, Universidades… no governo noto mais fracassos do que sucessos.Deve ser culpa dos “outros” !!

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