Sócrates, 2.ª parte

A entrevista de José Sócrates à TVI, cuja segunda parte foi emitida esta terça-feira, parece ter perturbado alguns jornalistas. José Alberto de Carvalho deu nota disso quando logo após o final da entrevista disse, na TVI 24, que aquela era uma entrevista que devia ser feita mas que muitos não a quereriam fazer. Paulo Baldaia, director da TSF, deixou o mesmo pensamento na sua página do Facebook.

A ideia de que uma entrevista jornalística deve ser algo que se assemelhe a uma luta de galos é muito pouco jornalística, já que uma entrevista existe para que o entrevistado apresente os seus pontos de vista acerca de um assunto sobre o qual é questionado pelo entrevistador, que deverá dominar os assuntos sobre os quais incidirá a entrevista. Esse questionamento pressupõe que quem pergunta não se limite a ouvir as respostas mas que volte a questionar para aprofundar e contrapôr algo que não tenha ficado claro. Mas pressupõe também que quem pergunta quer e sabe ouvir.

Ora, a entrevista de José Sócrates não era uma entrevista como qualquer outra, devido, desde logo, à situação rara de se tratar de alguém que tendo sido primeiro-ministro, esteve preso preventivamente mais de um ano não tendo ainda sido acusado, apesar de o seu processo preencher centenas de páginas de jornais e horas de emissão televisiva.

José Alberto de Carvalho percebeu que tratando-se deste entrevistado era preciso ouvi-lo, deixá-lo explicar-se, sem deixar de o confrontar com o essencial das questões de que está indiciado e que os portugueses conhecem através dos media. E é aqui que reside o essencial da diferença entre esta entrevista e qualquer outra. É que todas as perguntas que lhe foram  feitas (que são também as que qualquer português lhe faria) são baseadas no que jornais como o Correio da Manhã e outros têm publicado sobre o processo, isto é, são perguntas que trazem consigo um juízo prévio de condenação, cuja veracidade e rigor não conhecemos.

Essa incomodidade foi patente durante a entrevista, quando Sócrates reage porque  as  perguntas repetem as teses da acusação como se fossem verdades provadas. E, de facto, assim é. O que conhecemos do processo é aquilo que o Ministério Público e os jornalistas com acesso ao processo querem que conheçamos. Ora, se Sócrates nega, como fez com toda a veemência, as acusações que lhe são apontadas pelo Ministério Público e pelos jornais, de que lhe pertencem os milhões de Santos Silva, que levava vida luxuosa em Paris, que favoreceu o grupo Lena e recebeu benefícios do Protal, o que resta do processo que possa ser-lhe perguntado? Só a acusação e a abertura do processo poderão desvendar.

Aqueles que criticam José Alberto de Carvalho por ter entrevistado Sócrates deixando-o expôr a sua visão do processo, queriam talvez que José Alberto partisse para a entrevista não para o ouvir mas para o humilhar e achincalhar.

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9 respostas a Sócrates, 2.ª parte

  1. Filipe diz:

    É precisamente isso que estou a sugerir, Sr. Galuxo. Ele disse fotocópias, como poderia ter dito robalos. Foi o que lhe ocorreu. Acha que robalos seria menos suspeito? O Sr. Vara e o Sr. Godinho acham que sim.

    Ou então, eis a alternativa do Sr. Galuxo: um ex-PM passa a vida a ligar a um amigo, um ocupado empresário, para lhe pedir… fotocópias. E em vez de o mandar ligar à secretária, ou a uma reprografia, o amigo passa a vida a dar-lhe fotocópias… e dinheirinho para estourar. Cerca de 1 milhão de euros em 3 anos, diz quem fez as contas. É isto que lhe parece lógico e normal?

    Se é nisto que acredita, tenho uma ponte para lhe vender.

  2. Lucas Galuxo diz:

    O Sr. Filipe está a sugerir que José Sócrates sabia que estava a ser escutado e que, na era da encriptação de mensagens e do snapchat, a linguagem de código que lhe pareceu mais adequada para ludibriar o inspector à escuta foi sustituir a palavra notas por fotocópias? Pois é. Tudo indica que esse é o nível de inteligência em que a investigação se encontra. A pergunta que se impõe é esta: Há quantos portugueses a acreditar numa loucura destas? 10, 1000, 1 milhão? Isto é um caso muito sério.

  3. Filipe diz:

    D. Helena Andrade e senhor dos trópicos: ainda bem que chegaram. Como especialistas, poderão certamente esclarecer o que a “entrevista” não conseguiu.

    Então o V/ herói ligava constantemente ao amigo, suposto empresário de sucesso, para lhe pedir… fotocópias? Era isto? Fotocópias? E “aquilo de que gosto muito” talvez fosse… gelado? O empresário levava-lhe uns cornettos?

    Bom, na verdade não é estranho: o Sr. Godinho sucateiro também ia ter com o Armando Vara, administrador da CGD e do BCP, para lhe pedir direcções e levar peixe fresco. Estes hábitos, embora excêntricos para o resto do mundo, são vulgares no PS. E sendo o V/ herói e o Vara compinchas de longa data, têm decerto muito em comum…

  4. Maria Manuela Nunes diz:

    O José Alberto de Carvalho é um excelente profissional e teve uma conduta correcta. Deixou José Sòcrates falar e questionou-o sempre que achou necessário. Todos os ouviram a entrevista
    ficaram a pensar e a questionar na veracidade dos factos. Um jornalista que se preze não humilha, nem achincalha o entrevistado, foi o que fez o entrevistador. Parabéns José Alberto de Carvalho pela lição que deu aos seus colegas.

  5. senhor dos tropicos diz:

    Sr.Filipe, proponho-lhe que procure o programa onde JRSantos confronta JS da forma q sugere. Chamava-se “A opinião de José Socrates”. Veja-a e relaxe, pois nela se viu que nem apanhado de surpresa conseguiram o que o Sr.Filipe almeja. Cts.

  6. Não percebeste nada pois não ó Filipe 1

  7. Suaresk diz:

    É esta a minha prospectiva o que se assemelha-se igual ao conteúdo do último paragrafo: ( Aqueles que criticam José Alberto de Carvalho por ter entrevistado Sócrates deixando-o expôr a sua visão do processo, queriam talvez que José Alberto partisse para a entrevista não para o ouvir mas para o humilhar e achincalhar. ) Quando não se gosta, deve-se por no canto do prato.

  8. Filipe diz:

    Não era preciso humilhá-lo: bastava questioná-lo, em vez de ser um mero espantalho. Bastava pelo menos fingir que é um jornalista, com vontade de chegar aos factos, em vez de um lacaio que abicha um salário obsceno apenas para fazer fretes ao Professor Martelo, ao minorca Mendes ou a este artista parisiense.

    Um exemplo entre tantos: perto do fim, questionou a criatura sobre os códigos que usava para o dinheiro nos telefonemas ao amigo-mecenas – fotocópias, etc. A criatura desmentiu. E o espantalho não foi capaz de perguntar: então mas… ligava ao seu amigo, um ocupado empresário, para lhe pedir fotocópias?? E “aquilo de que gosto muito”?? Afinal de que falava?

    Nada. Não perguntou nada. Aceitou a não-resposta e meteu a viola no saco. E o canalha, todo contente, a cantar a sua eterna cantiga do coitadinho e da cabala. Porque o deixam.

  9. S. Bagonha diz:

    “partisse para a entrevista não para o ouvir mas para o humilhar e achincalhar.” Como em tempos um tal sr. “dos santos”, soi-disant jornalista e apresentador de noticiários televisivos, escritor e etc. e tal, tentou fazer, sem o conseguir no entanto, antes levando um enxovalho tal
    que ainda hoje o deve atazanar.

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