Presidenciais: na rádio pública os dez candidatos couberam na mesma mesa

Antena 1 presidenciaisA Antena 1 mostrou que é possível juntar os dez candidatos à eleição presidencial num debate centrado nas funções presidenciais,  sem atropelos nem questões marginais, sem prejuízo da abordagem de questões da agenda do dia, as quais não deixam também de constituir matéria de interesse para a escolha do próximo presidente da República.

O mérito do sucesso do debate com os dez candidatos deve-se em grande parte à jornalista Maria Flor Pedroso, que o moderou e foi capaz de definir as regras, lançar os temas, e impedir que as intervenções se desviassem para questões laterais da agenda pessoal de cada candidatos. Maria Flor Pedroso é uma jornalista com grande conhecimento da política nacional, área que cobre há muitos anos, nomeadamente no Parlamento. Os candidatos foram colocados em igualdade de circunstâncias, cada um teve tempo de dizer o que pensa sobre os temas em debate e oportunidade de responder e contraditar afirmações de outros.

O tempo de duas horas que durou o debate revelou-se adequado para o objectivo pretendido. Se pensarmos que os comentadores desportivos dispõem de tempo idêntico nas televisões informativas do cabo para analisarem os jogos de futebol, verificamos que teria sido  possível organizar debates com os dez candidatos em todas as televisões e não apenas na pública, assim os directores tivessem tido interesse em os realizar. Isso evitaria a corrida aos frente-a-frente em dias seguidos antes do período oficial da campanha, tornando difícil senão impossível aos cidadãos interessados acompanharem todos os debates e, sobretudo, evitar a repetição de perguntas e de respostas e a tendência para colmatar a saturação com picardias entre candidatos ou provocações do moderador para “animar” a conversa.

Temas incontornáveis como o Banif e o sistema financeiro  não deixaram de estar presentes no debate da Antena 1, bem como outros temas a que o Presidente está directamente ligado, como a política internacional, as regras europeias e as Forças Armadas que entraram na discussão juntamente com aqueles temas que estão no coração das funções presidenciais, como a dissolução do Parlamento e a demissão do governo.

Mas o presidente da República é um órgão uninominal, o que significa que o perfil dos candidatos não é de somenos importância. A experiência, a cultura, o conhecimento do País, a formação cívica, o carisma, são qualidades que também importa conhecer e avaliar num candidato a presidente da República. A avaliação dessas qualidades pressupõe da parte dos jornalistas algum trabalho prévio de investigação  que não se cinge à leitura de biografias, autorizadas ou não, nem a uma auto-avaliação do próprio candidato.

Este tipo de avaliação não se confunde com a devassa da vida íntima dos candidatos e das suas famílias, onde cabem a orientação sexual, religiosa, ou a etnia, aspectos que os tablóides exploram para ganharem audiências. Frequentemente, face à tendência para a tabloidização da política, confunde-se a devassa da vida íntima  com a análise do  perfil dos candidatos a funções políticas, que é não só legítima como necessária para uma escolha mais informada por parte dos cidadãos.

Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa perceberam a importância de algumas das facetas que integram os respectivos perfis e invocam frequentemente a sua experiência anterior. A primeira, na política, o segundo, na vida académica. Henrique Neto, por sua vez, cita o facto de ter escrito um livro com a sua visão para o País e ter sido operário, empresário e deputado. Marcelo invoca a sua experiência como líder do PSD e deputado constituinte, “esquecendo”, de certo modo, a sua função de comentador do regime. Paulo Morais, o mais radical, centra-se quase só na corrupção, tema sem dúvida importante mas redutor para um candidato presidencial. Marisa Matias usa bem os conhecimentos e a  experiência como deputada europeia. Edgar Silva, para além da sua condição de membro do PCP pouco se conhece do seu perfil. Do perfil dos três restantes, pouco ou nada ficamos a conhecer através das suas presenças em frente-a-frente ou em debates.Verdade seja dita que nem os jornalistas nem a grande maioria dos portugueses estão verdadeiramente interessados em conhecê-los. Isso poderá ser uma tremenda injustiça à luz das regras democráticas. Porém, se  o  escrutínio dos candidatos que se apresentam a eleições (presidenciais ou outras) fosse qualitativamente mais aprofundado talvez a escolha ficasse reduzida apenas aos melhores entre os melhores.

A Antena 1 deu hoje um exemplo de como  dez candidatos podem juntar-se a uma mesa para dizerem o que pensam sobre alguns dos assuntos sobre os quais, se forem eleitos, lhes cabe decidir. Mas esta é apenas uma parte do que precisamos de saber sobre os candidatos. Falta, pelo menos, uma segunda parte, um outro debate a dez em que esteja vedado ao moderador e aos candidatos fazerem as mesmas perguntas e darem as mesmas respostas.

Ficamos à espera que o próximo debate com os dez à mesma mesa traga novos ângulos sobre o perfil dos candidatos.

 

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