O ministro que não se importa que lhe chamem “radical”

Ministro da Educação na ARO Modelo integrado de avaliação externa das aprendizagens no Ensino Básico, apresentado publicamente há dias pelo Ministro da Educação, provocou uma onda de críticas oriundas sobretudo de comentadores. Grande parte dessas críticas enferma de um problema comum, que é o de os seus autores não estarem  suficientemente informados sobre o sector. São sobretudo críticas do domínio puramente político.  Criticam-se as alterações porque não se gosta do governo ou do ministro – “é muito novo e não tem experiência”, “tem vivido fora do país”, “não há estudos prévios”, a “decisão é tomada a meio do ano lectivo”, é “radical”, contraria o parecer do CNE”, “é uma enorme confusão”, etc., etc..

Ora, a audição do ministro Tiago Brandão Rodrigues, hoje realizada na Comissão Parlamentar de Educação, mostrou a vacuidade e a superficialidade dessas críticas e também das que foram expressas na audição pelos deputados do PSD e do CDS (sobretudo do primeiro). De facto, o que a direita e os comentadores com ela alinhados não aceitam é que o governo se tenha “atrevido” a mudar  as políticas de Nuno Crato, essas sim, radicais, ideológicas, inadequadas e nocivas à formação dos alunos. Foi Nuno Crato quem mudou as regras que vinham sendo aplicadas e consolidadas por governos anteriores que são praticadas noutros países. Quando um deputado lhe chamou “radical” o novo ministro não se atrapalhou e respondeu: “Sim, sou radicalmente a favor da aprendizagem dos alunos!”.

As afirmações de que o novo modelo é repentino e não foi precedido de estudos mostram, como referiu hoje na audição parlamentar o secretário de Estado da Educação, João Costa, um especialista na área, desconhecimento ou desatenção sobre estudos  nacionais e internacionais (que ele citou) sobre a matéria. Aliás, bastaria ter lido os artigos que João Costa escreveu no Público antes de ir para o governo, na qualidade de investigador, precisamente sobre os exames do ensino básico  e sobre outras matérias educativas,  para perceber que o modelo assenta em estudos e foi pensado e discutido entre peritos.

Quem agora critica a equipa da Educação por alterar as regras de Nuno Crato devia saber que quem desestabilizou o sector da Educação foi o governo anterior, não podendo o actual governo deixar de corrigir os erros cometidos. Privilegiar  a aprendizagem na sala de aula e a avaliação contínua em vez de mobilizar professores e alunos em treinos para os exames é apostar na formação dos jovens para a vida. As medidas anunciadas nada têm de improviso, são, sim, estruturantes do processo educativo.

Para os mais distraídos, eis alguns excertos de artigos que o actual Secretário de Estado da Educação, João Costa, escreveu no Público, onde afirma princípios que agora se encontram no modelo anunciado.

“Exames: é preciso conhecer a escola”

“(…)  é importante distinguir avaliação de aferição. Uma prova externa tanto pode servir para avaliar o aluno como para aferir as práticas e o que é ensinado no sistema. A ideia de que os alunos se empenham menos se as provas forem de aferição e não de exame é absolutamente falsa e só quem nunca esteve à porta de uma escola de primeiro ciclo em dia de prova de aferição é que o pode afirmar. (…)

(,,,) É falacioso pensar que uma cultura de exames promove melhores aprendizagens, porque os exames potenciam apenas um tipo muito preciso de resolução de problemas. Prova disto é o facto de, como se sabe, em grande parte das salas de aula, o terceiro período ser passado a “preparar os alunos para os exames”. O que é isto? É passar o tempo a treinar os alunos a saber responder às perguntas standardizadas dos exames e a orientá-los para os melhores desempenhos naquele tipo específico de situação. O pensamento crítico, a capacidade de análise, a reflexão, que são bem mais exigentes, ficam perdidos e desperdiçam-se dois a três meses de trabalho no treino para um exercício de duas horas. (…)” João Costa, Público, 24/07/2015

 “Que visão sobre o ensino da língua?

“(…) Mas a sede destrutiva é imparável. Foi preciso revogar o currículo nacional, porque continha palavras proibidas. Hoje [Março de 2015], nos corredores do Ministério da Educação é proibido falar em “competências”. O neo-eduquês elegeu o termo “capacidades” e muitos são os documentos em que se deve ter usado a ferramenta “search and replace” do Word para fazer esta substituição. Por isto mesmo, é preciso fazer à pressa um novo Programa de Português, substituindo um documento que está em fase de apropriação pelos docentes, que foi submetido a um processo sério de escrutínio, por um documento cujo objetivo principal é estar em vigor ainda em 2015, para que, quando mudar o Governo, se possa garantir que já não há nada a fazer. (…)” João Costa, Público, 2015-03-09

Bastaria aos comentadores mais inflamados nas críticas à equipa do Ministério da Educação, incluindo colunistas do Público, terem lido o que se publica no jornal onde escrevem. Não é pedir muito!

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5 respostas a O ministro que não se importa que lhe chamem “radical”

  1. A CNE sabe obviamente de educação e é preciso ler o seu relatório. Mas sempre foi assim e só agora é que se cita a CNE. No tempo de Nuno Crato a CNE fez relatórios extremamente críticos das políticas educativas, ao contrário do que aconteceu agora com este parecer.Porque é que antes ninguém ligava à CNE e agora liga? Será porque tem um ex-ministro do PSD a presidi-la? Temos que ser coerentes e informados…

  2. cristof9 diz:

    A CNE é uma entidade que nada sabe de educação? E a experiencia das provas de aferição dá para ver o valor que lhe foi dadp anteriormente =zero!! mas podemos sempre ver o filme com os oculos a escolha.

  3. A incompetência faz com que comecem a fazer a casa pelo telhado. Mais adiantado mental

  4. Ana Lúcia Sttau Monteiro diz:

    Pode começar por limpar as escolas portuguesas de Piolhos, são autenticos viveiros – acreditem nenhum miudo pode concentrar-se tendo piolhos.

  5. O regresso da bandalheira eduquesa…

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