Haja respeito pelas crianças!

vip-2016-01-31-9537f3nova-gente-2016-01-29-9bdb2aNão se vislumbram boas razões que justifiquem a publicação, agravada pelo destaque que lhe foi dado por duas revistas de “sociedade”, de um depoimento de uma criança de 12 anos, prestado no Tribunal de Família, no âmbito da disputa do poder paternal, ao qual, segundo o relato de uma dessas revistas, estiveram presentes para além da juíza, uma “perita do Instituto de Medicina Legal  e um representante do Ministério Público”.

O depoimento da criança é publicado nas duas revistas em discurso directo, o que significa que a fonte que o forneceu ou assistiu à audição da criança e tomou notas que depois lhes forneceu ou o depoimento foi gravado pelo tribunal e posteriormente cedido às revistas ou a terceiros que o fizerem chegar a estas.

A audição de uma criança com idade superior a 12 anos nos assuntos que lhe dizem respeito está consignada internacionalmente na  Convenção sobre os Direitos da Criança.  No caso em concreto, a criança é filha de duas figuras públicas – a apresentadora de televisão, Bárbara Guimarães, e o professor e ex-político, Manuel Maria Carrilho –  cuja separação deu origem a cenas rocambolescas e acusações reciprocas de violência física, amplamente divulgadas e comentadas em meios de comunicação social tablóides.

Porém, independentemente do interesse pessoal e da eventual colaboração dos progenitores na mediatização do drama que os envolve e sobretudo aos seus filhos menores, e ainda que a lei permita a divulgação de depoimentos das crianças envolvidas, um mínimo de respeito pela privacidade da criança autora do depoimento, deveria levar os media a uma auto-contenção, sobretudo quando a publicação do conteúdo do depoimento não possui qualquer interesse público, alimentando apenas o voyeurismo e o sensacionalismo.

Chamar à primeira página declarações de uma criança sobre a sua mãe, prestadas em sede de Tribunal e apenas perante autoridades por ele autorizadas, é um acto chocante e indigno de alguém que ostente uma carteira profissional de jornalista. Qualquer que seja o sentido e a gravidade dessas declarações, a sua publicação  constitui uma dupla agressão: à mãe que é nelas visada e à própria criança que as prestou em ambiente “protegido”, certamente desconhecendo que elas iriam ser capa de revistas.

O menino de 12 anos que no uso de um direito que a lei lhe faculta se pronunciou sobre o seu destino, dificilmente se libertará do efeito que a publicitação do seu depoimento certamente produzirá no seu ambiente familiar e no meio social em que se move.

 

 

 

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4 respostas a Haja respeito pelas crianças!

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  3. Mendel Pinto dos Santos diz:

    Toda a gente sabe a origem das fugas de informação nos Tribunais e. acusam sempre outras entidades. Este jornalista que divulgou esta notícia é um miserável,um verme…

  4. urantiapt diz:

    Concordo em pleno. Hoje, o jornalismo, numa forma geral tornar-se em mero voyeurismo, desprestigiando os poucos que levam a sério o papel de informador/formador. O bom senso não existe. Só vendas. Começam por ser meros tablóides à procura da desgraça.
    Que tempos.

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