O vídeo sensacionalista da ASAE

A ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica) resolveu assinalar o seu 10.º aniversário com um vídeo a que chamou “Toda a Verdade”, no qual para além de uns textos sobre os objetivos do organismo e sobre a sua história são exibidas um conjunto de imagens não identificadas, obtidas em acções de fiscalização realizadas não se sabe quando nem onde.

São, presumivelmente, imagens de cozinhas e despensas de restaurantes,  que mostram comida podre com ratos e ratazanas, utensílios de cozinha degradados, carne meio podre, pão cheio de bichos, enfim, um imenso nojo a provocar vómito e a levar as pessoas a fugirem dos restaurantes.

Na medida em que estas imagens não são enquadradas no tempo e no espaço,  prestam-se a todas as manipulações. São, além do mais, contraditórias com a mensagem dos actuais dirigentes de que em 2006 a taxa de incumprimento no sector alimentar e restauração era de 38% e agora é de 18%. Ora, se a situação melhorou qual a justificação da ASAE para a exibição de imagens tão degradantes e prejudiciais à imagem do País e dos restaurantes portugueses?

O video é da autoria da Associação Sindical dos funcionários da ASAE mas, certamente, obteve o apoio dos funcionários e dos dirigentes. Contudo, o vídeo presta um mau serviço aos portugueses e à própria ASAE. É que o uso dos meios audiovisuais requer competências não apenas técnicas mas também culturais e políticas, que permitam interpretar e traduzir em imagens e palavras o sentido e a utilidade da instituição junto dos cidadãos,  para mais tratando-se de uma entidade que realiza um indiscutível serviço público.

A ASAE revelou desde que iniciou funções uma preocupação exagerada com a sua visibilidade e com a mediatização das suas acções de fiscalização, fazendo-se acompanhar das televisões nessas acções. Ficaram na memória as inspecções em restaurantes chineses, conhecidas como “Operação Oriente“, cujas reportagens televisivas mostravam imagens como as que são agora retomadas neste vídeo, as quais, pela generalização feita, levaram muitos portugueses a fugirem dos restaurantes chineses, provocando uma crise no sector.

É evidente que uma entidade como a ASAE é absolutamente necessária e deve possuir meios para exercer uma fiscalização eficaz. Porém, não é com vídeos alarmistas e descontextualizados que presta o serviço público para que foi criada. Usando os dados da própria ASAE, o vídeo devia chamar-se antes:  “Já não é verdade!”

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