Fixação em Sócrates

Sócrates CMO semanário Sol e o Correio da Manhã publicaram escutas telefónicas ocorridas em 2014, transcritas para  o chamado “caso Marquês” de conversas entre Sócrates, o jornalista Afonso Camões e o advogado Daniel Proença de Carvalho, presidente da Controlinveste, empresa detentora do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF. O caso mereceu até um editorial do director do Correio da Manhã a pressionar a ERC para analisar as ditas conversas telefónicas, e um artigo em que o CM lamentava o “muro de silêncio” em torno dessas escutas. As ditas escutas referiam-se também a outros jornalistas do grupo Controlinveste, um dos quais, Ferreira Fernandes, respondeu num estilo certeiro e contundente.

O jornal Sol voltou ao assunto e pediu a minha opinião, que publicou, em parte, este sábado, na edição papel.

Aqui vão as perguntas e as respostas (link do artigo indisponível):

Pergunta:Como analisa a forma como foram “negociadas”, durante largos meses de 2014, as direcções do DN e do JN, com a intervenção de elementos estranhos à empresa detentora os títulos e às respetivas redações?

Resposta: Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que não conheço o processo a que se refere, tendo lido apenas o artigo do Sol no qual são referidas escutas telefónicas e citados excertos de conversas cujo enquadramento desconheço. Não sei se o SOL teve acesso directo a essas escutas ou se apenas aos resumos feitos pelo/s agente/s que as transcreveram. Por princípio, desconfio de resumos de escutas telefónicas que eu própria não tenha ouvido pela descontextualização a que se prestam.

Isto dito, a Controlinveste é um grupo privado de comunicação social e, tal como acontece com outros, cabe à administração escolher o director. Naturalmente que essa escolha obedece a critérios e procedimentos que não são públicos nem têm que sê-lo. Não sabemos normalmente como é que são escolhidos os directores dos jornais de outros grupos privados nem com quem (fora ou dentro do grupo) os administradores desses meios se aconselham quando os escolhem. Imagino que ninguém impõe directores a uma administração, a não ser talvez algum accionista com mais poder.

Em 2014 José Sócrates já não era primeiro-ministro nem exercia qualquer cargo público, pelo que a sua opinião e influência sobre um administrador ou acionista de um grupo de comunicação não têm qualquer relevância criminal ou de outra natureza. As suas opiniões e conselhos valem o que valerem para quem as pede ou as recebe. Sendo amigo de Afonso Camões, como parece deduzir-se, Sócrates recomendou a sua nomeação para o grupo, o que não é caso único nem raro em Portugal onde a “cunha” é uma “instituição” em muitos sectores da vida nacional, incluindo nos media. Quanto a Proença de Carvalho, é um homem com currículo na comunicação social embora seja também advogado. Em Portugal, não é incompatível que os advogados sejam deputados e administradores de empresas jornalísticas. Podem até ser directores de jornais, obtendo o título de equiparados a jornalistas Francisco Sousa Tavares, advogado de renome, foi director do jornal  A Capital. Quem escolheu [Proença de Carvalho] para a Controlinveste tinha liberdade e legitimidade para o fazer como este a tinha para escolher os directores. O que cada um pensa do outro é irrelevante, conhecê-lo é uma curiosidade, incluindo o auto-elogio que as escutas atribuem a Afonso Camões.

Pergunta: À luz dos dados conhecidos, considera que houve uma tentativa de controlo daqueles títulos?

Resposta: Indicar um nome para director de um jornal (ou de dois) não significa que a pessoa que faz essa indicação passa a ter “controlo” sobre esse jornal. Há aí alguma efeito das “teorias da conspiração”. Mesmo o director de um jornal não o controla (no sentido pejorativo da palavra “controlar”), dado que os jornalistas têm um estatuto e um código deontológico que os protege dessas tentativas. E se elas existirem devem denunciá-las. Bem sei que a escassez de emprego no sector coarta a autonomia dos jornalistas mas, mesmo assim, existem entidades como a ERC e a Comissão da Carteira que têm funções de garantia da liberdade de imprensa. Não seria, aliás, caso único, que jornalistas se queixassem de pressões vindas do próprio director, mas isso, em Portugal, só acontece nos meios de comunicação social públicos, nos privados só conheço queixas de pressões oriundas de políticos. O regulador tem como uma das suas funções garantir a liberdade de imprensa e a autonomia dos jornalistas face aos poderes político, económico e outros.

Pergunta: Que consequências devem ser retiradas de episódios como este?

Resposta: As consequências são as que cada um quiser tirar. Claro que as opiniões de um ex-primeiro ministro sobre um jornalista, boas ou más, têm interesse jornalístico mas não creio que tenham consequências criminais ou outras. Podem afectar a reputação do jornalista mas também não é novidade que muitos políticos mantêm relações de proximidade e amizade com jornalistas e isso não é pecado nem crime desde que cada um respeite as funções do outro. A novidade e o picante neste caso é o facto de o político ser um ex-primeiro-ministro que está a braços com um processo judicial e de as “revelações” resultarem de escutas obtidas no decorrer do processo que são apenas conhecidas por quem tem acesso ao processo. O “segredo” é aqui um valor-notícia não desprezível.

Haveria naturalmente muito mais a dizer sobre a fixação destes dois jornais em José Sócrates e na influência que julgam que ele ainda exerce ou pode exercer sobre os media. Ora, Sócrates é desde 2011 um cidadão sem cargos políticos e tem direito a ter opiniões sobre jornais e sobre jornalistas. Nada o impediria, aliás, a ele e a qualquer outro cidadão, de fundar um jornal, visto que em Portugal a criação de jornais é livre. Se há pessoas que lhe pedem opiniões sobre o que quer que seja e as seguem, é lá com elas.

Alguém perguntou porque é que proprietários de outros órgãos de comunicação social convidam este ou aquela para director ou directora de jornais, rádios ou televisões?Alguém questionou as recentes mudanças nas direcções de jornais e canais de televisão do  grupo Impresa? Não questionou nem tinha que questionar!

E o que se passou com o jornal Sol (e o jornal i) até há pouco propriedade de Álvaro Sobrinho, banqueiro e homem de negócios angolano,  ex-administrador do BES Angola  e dono da Newshold, ligado a casos de justiça, não é muito mais grave do que as opiniões de Sócrates sobre o jornalista Afonso Camões e a Controlinveste?

Porquê então esta fixação em Sócrates e no grupo Controlinveste?

 

Esta entrada foi publicada em Imprensa, Jornalismo, Política, Sociologia dos Média com as etiquetas . ligação permanente.

7 respostas a Fixação em Sócrates

  1. Bea diz:

    Não se entende. Mas neste blogue, pelos vistos, mantém-se.

  2. Porquê a fixação em Sócrates ? Porque estão apaixonados por ele e é amor não correspondido !
    Pelo menos agem com um descontrolo emocional típico dessa circunstância.

  3. carlosalvares diz:

    A fixação em Sócrates, dos doutos juízes Carlos Alexandre e Rosário Teixeira é uma questão de sobrevivência de credibilidade. Por José Sócrates ser figura pública, desejosos de saírem do cinzentismo das suas vidas, trataram de dar ao problema em que ele estava envolvido, o aspecto de crime de lesa à pátria.O que lhe dá a publicidade que ambicionam. O problema é que não conseguem provas para credibilizar as suas acusações. O que faz com que fiquem, pelo menos, mal vistos. Para mais, dado todo o folclore feito à volta do caso, tornando-o alvo das investidas de todo o tipo de pseudo ou verdadeiros jornalistas e comentadores de ocasião. Carlos Patrício Álvares (Chaubet)

    No dia 28 de fevereiro de 2016 às 20:22, VAI E VEM escreveu:

    > estrelaserrano@gmail.com posted: “O semanário Sol e o Correio da > Manhã publicaram escutas telefónicas ocorridas em 2014, transcritas para o > chamado “caso Marquês” de conversas entre Sócrates, o jornalista Afonso > Camões e o advogado Daniel Proença de Carvalho, presidente da > Controlinveste” >

  4. Mesmo sendo uma “cunha”, no sentido de “recomendação” de um amigo para um cargo numa empresa privada, por parte de uma pessoa que não exerce funções públicas nem tem poder para impôr essa nomeação, não vejo onde é que isso é matéria de justiça ou sequer ética. Todos (ou pelo menos alguns) nos lembramos de um jornalista se ter oferecido, em vão, para director da televisão pública e de outras influências para que tal ou tal pessoa fosse para director de um determinado media. O empolamento dessas escutas visa objectivos relacionados som a concorrência entre jornais e grupos.

  5. cristof9 diz:

    Talvez porque ele e seus amigos andaram anos a perseguir jornalistas, como a Felicia Cabrita e M Moura Guedes?
    Claro que tinham direito a sua opinião, tal como agora temos todos os que achamos que andaram mal essa seita toda, antes.

  6. jose neves diz:

    Se duvida da contextualização das transcrições, e é caso mais que duvidoso vindo donde vêm, e se não sabe (pelo menos nas respostas não é dito) se se trata ou não de um pedido de aconselhamento por parte de PC (ou alguém a pedido de PC) a Sócrates porque carga de água vem falar de “cunha”?
    Se se trata realmente de solicitação de um conselho particular e privado da administração a uma personalidade e não uma iniciativa dessa personalidade para favorecer um amigo como se pode conceder tratar-se de uma “cunha”?
    Neste caso, penso eu, quem não teria certezas sobre quem nomear é que usou de “cunha” para pedir uma opinião.

  7. Rui Silva diz:

    Reblogged this on Farrusco and commented:
    Porquê a fixação em Socrates? Boa pergunta de facto…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s