Será que aquela mulher e o seu filho são arguidos no “processo Marquês”?

O Correio da Manhã e o seu canal de televisão CMTV estão a transmitir diariamente em vários noticiários e programas excertos do interrogatório de José Sócrates, no qual surgem citações de conversas deste com várias pessoas “apanhadas” nas escutas captadas no âmbito do “Processo Marquês”. A justificação apresentada pelo jornal e pelo canal é o “interesse público” do que é dito, visto as escutas abrangerem um ex-primeiro-ministro. Alegam também o facto de o CM e a CMTV terem sido impedidos de  publicar notícias sobre esse processo, por decisão judicial, e essa decisão ter agora sido anulada. Estão, pois, a “recuperar” o tempo em que estiveram sob “censura”.

CM escutas a Sócrates

Nas partes emitidas pela CMTV  são ouvidas as respostas do ex-primeiro-ministro, José Sócrates e de Carlos Santos Silva, também arguido no processo, e as perguntas que lhes são feitas pelo  juiz Carlos Alexandre e pelo procurador Rosário Teixeira baseados nas escutas a José Sócrates. Até aqui nada de novo, uma vez que as informações obtidas através de  escutas telefónicas obtidas em sede de processos judiciais abrangendo políticos e outras figuras públicas se tornaram um “produto” mediático e comercial muito rentável.

Porém, em algumas destas gravações que o CM e a CMTV estão a transmitir são transcritas no écran frases de pessoas que telefonaram a José Sócrates pedindo-lhe ajuda financeira, ouvindo-se apenas de viva voz as respostas do ex-primeiro-ministro a essas pessoas. As pessoas em causa, todas mulheres, são identificadas com nome e imagem, sendo que uma das mulheres surge acompanhada de uma criança de tenra idade que as escutas revelam ser seu filho. Nas respostas de José Sócrates, transmitidas pela CMTV de viva voz, ouve-se Sócrates responder ao juiz Carlos Alexandre que a dita pessoa, sua amiga de longa data,  está numa situação difícil, que tentou suicídio, que o pai da criança não reconhece o filho, e outras informações de idêntico teor íntimo.

Ora, independentemente do interesse público de que se reveste conhecer a origem dos dinheiros envolvidos no “processo Marquês” e da razoabilidade ou do crédito que as respostas de José Sócrates possam merecer ao juiz e ao procurador, a verdade é que não deixa de ser eticamente condenável e chocante ver devassada por um jornal e por uma televisão a vida privada e íntima de pessoas “apanhadas” em escutas a um ex-governante com quem tinham relações de proximidade.

Será que aquela mulher e  o seu filho,  exibidos pela CMTV como troféus em nome da condenação de Sócrates, são arguidos no processo? Que interesse público existe na transmissão das explicações de Sócrates sobre a vida daquela e das outras pessoas que com ele conversaram durante o tempo em que foi escutado pelas entidades policiais? Porque não se protege a privacidade de pessoas que falam com arguidos quando  sobre elas não recai qualquer indício de crime?

Poderá sempre alegar-se que a lei não o proíbe e que, como disse um dirigente do PSD sobre a recente contratação da ex-ministra das Finanças por um grupo financeiro,  “a ética é subjectiva”. Porém, no plano ético e deontológico do jornalismo a exibição de pessoas não visadas no processo e sobretudo de uma criança, como a CMTV vem fazendo como se se tratasse da repetição de episódios de uma telenovela, é absolutamente condenável.

Se as instâncias de auto-regulação do jornalismo nada têm a dizer sobre isso, talvez as entidades que protegem as crianças tenham alguma coisa a dizer sobre a maneira como uma televisão expõe aquela criança.

 

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6 respostas a Será que aquela mulher e o seu filho são arguidos no “processo Marquês”?

  1. Maria Santos, não confunda as coisas, se trabalha em televisão devia estudar um pouco mais e saber que a exposição de crianças e da sua privacidade é protegida por lei

  2. Maria Santos diz:

    Era o que faltava sermos agora remetidos para o “facismo”, em que havia censura à imprensa. O que o CM publica são os os documentos que o tribunal não tem em segredo de justiça e que qualquer um pode consultar desde que se faça assistente no processo

  3. Rui Silva diz:

    Reblogged this on Farrusco and commented:
    É de todo lamentável a exposição da vida privada que a CMTV faz. para a CMTV vale mesmo tudo!

  4. Rui Silva diz:

    Os fins justificam os meios. O que interessa é vender, nada mais interessa.

  5. Abraham Chévre au Lait diz:

    Tudo vai mudar… nasci, cresci, estudei, fiz a guerra colonial, sempre sob o poder de Salazar e os seus delfins… e tudo mudou ! E nada mudaria agora, porquê? jpferra: não desanime,isso é o que a canalha quer!!!

  6. jpferra diz:

    Tenho a convicção absoluta que, enquanto for José Sócrates o visado, nada vai mudar. É a completa falta de vergonha de uma classe que mais cedo ou mais tarde vai pagar por estes pecadilhos.
    Ainda ensaiaram a mesma falta de vergonha com o Ex-ministro Miguel Macedo, mas por esses lados a coisa já pia fino.

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