O País vive em clima de “marcelite aguda”

 ENRIC VIVES-RUBIO

ENRIC VIVES-RUBIO


Se dúvidas houvesse, os portugueses que participam nos fóruns radiofónicos confirmaram hoje o clima de “marcelite aguda” em que o país mergulhou desde a eleição presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. Talvez só a selecção nacional (sobretudo depois dos sete/zero contra a Estónia) seja a única entidade capaz de rivalizar com o Presidente em matéria de simpatia e apoio.

De facto, é difícil encontrar no campo político uma personagem que lhe dispute o entusiasmo e a aprovação. Talvez Mário Soares no primeiro mandato tenha em alguns momentos provocado algo semelhante. Como Soares, Marcelo distribui beijos e abraços,  mas a sua “presidência de proximidade” é mais colorida, com as selfies que não existiam no tempo de Soares.

Marcelo empolga os jornalistas que lhe dão o palco de que ele precisa para realizar a sua “presidência de afectos”.  Ele vive para os media e a  televisão é o seu habitat natural. Ele sabe, como ninguém, como chegar ao coração dos portugueses que se habituaram anos a fio a vê-lo na televisão sempre bem disposto, mimando os jornalistas que com ele contracenavam, falando com o mesmo à vontade de política e de futebol, procurando, com raras excepções, não se comprometer com posições abertamente políticas ou partidárias, aparentando o distanciamento de quem sabia que opiniões  muito marcadas provocam clivagens que seriam prejudiciais à imagem que ele queria construir e solidificar ao longo do  tempo.

O estado de graça de Marcelo favorece o governo de António Costa, não só porque a omnipresença mediática do Presidente entretém jornalistas e comentadores, mas também porque a “protecção” que lhe tem dado enfraquece as críticas da direita e irrita o PSD. Marcelo-presidente usa com perícia  as técnicas de spin que praticou durante anos na posição de comentador, antecipando e influenciando a leitura dos acontecimentos da actualidade política, desdramatizando situações mais difíceis e criando um clima de tolerância e aceitação favorável ao governo.

Antonio Costa percebeu que a pratica presidencial de Marcelo, que poderia a primeira vista ser considerada intrusiva na acção governativa, constitui uma preciosa ajuda no desanuviamento do clima político e contribui em muito para a etabilidade do governo. Ao contrário, a “gritaria” do PSD e do CDS e a inconsistência e incoerência do discurso destes partidos cai em saco roto e une a esquerda ao Presidente.

O desafio de Marcelo será conseguir chegar ao fim do mandato apoiado pelo PS para a reeleição num segundo mandato, como aconteceu com Soares que, sem o pedir, teve o apoio do PSD então iliderado por Cavaco.

Marcelo não deixará de fazer contas e de estudar o momento em que decidirá quais os apoios que procurará para renovar o mandato. A baliza que traçou, num dos raros momentos em que a palavra o atraiçoou, as eleições autárquicas, mostram que o Presidente dos afectos não matou o comentador dos domingos.

Tudo visto, a ” marcelite aguda” está para durar…

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