A dança de cadeiras na comunicação social

cadeirasAs recentes mudanças de directores de órgãos de comunicação social revelam um estreitamento do mercado do jornalismo traduzido numa espécie de dança de cadeiras entre jornais, rádios e televisões que não é muito saudável para o pluralismo da informação.

De facto, em Portugal é frequente os mesmos jornalistas circularem entre jornais, rádios e televisões ocupando cargos de direcção ou como comentadores, não raras vezes acumulando as duas qualidades, monopolizando e propagando determinadas visões do mundo e leituras da realidade.

O fenómeno não ocorre apenas entre jornalistas de meios de comunicação social pertencentes a diferentes grupos.  Repete-se no interior dos próprios grupos de comunicação socia. Veja-se em concreto: no grupo Impresa, o Expresso mudou há pouco tempo de director mas o anterior, Ricardo Costa, e o seu antecessor mantêm colunas de opinião no jornal, ao mesmo tempo que eles e  outros elementos da direcção do Expresso são comentadores regulares nos canais de televisão do grupo.

O mesmo acontece no grupo Global Média: o ante-penúltimo director da TSF, Paulo Baldaia, a rádio do grupo, passa agora a director de um dos jornais do grupo, o  Diário de Notícias, onde já era colunista, enquanto o ainda director deste jornal, André Macedo, vai para a direcção da RTP, onde já era comentador. Por seu turno, o ainda director da TSF, David Dinis, vindo da direcção do jornal electrónico Observador, vai passar a director do jornal Público.

A movimentação circular de jornalistas entre órgãos de comunicação social tem ainda outra face que revela até que ponto o sistema mediático português se tornou mimético e indiferenciado.  Embora em Portugal os jornais não se posicionem ideologicamente (à direita, à esquerda ou ao centro) o que não significa que sejam ideologicamente neutros, não deixa de ser estranho que um jornalista passe da direcção de um jornal assumidamente de direita, do qual foi também um dos fundadores – o Observador –  para dirigir o jornal tido como mais à esquerda do panorama mediático nacional – o Público.

Acresce que as mudanças  acima citadas raramente se traduzem em alterações substantivas perceptíveis pelos  leitores, ouvintes ou telespectadores desses meios. Eventualmente, as novas direcções mudam alguns colunistas e comentadores, talvez o grafismo mas pouco mais. Isso poderá resultar de os estatutos editoriais – onde se definem as linhas orientadoras de um meio de comunicação social – serem em geral muito semelhantes defendendo princípios e regras profissionais gerais e abstractas, indiscutíveis para qualquer meio de comunicação social. Todos eles são omissos em termos de posicionamento político e ideológico pelo que a escolha de um director não  é acompanhada de um programa de acção relacionado com o cumprimento de um projecto editorial tendo como base objectivos concretos. Quando muito, a administração fixa objectivos comerciais.

É também notória a falta de transparência que existe nas mudanças de direcções nos órgãos de comunicação social. Raramente alguém pergunta e muito menos alguém responde, incluindo os próprios, as razões de demissões ou nomeações nas direcções, a não ser quando envolvem a RTP onde surge logo a suspeita de saneamento político (quando alguém sai) e compadrio político (quando alguém entra). Mas dos restantes nada sabemos. E no entanto todos exigem, justamente aliás, transparência a outras instituições públicas e privadas quando algum dirigente se demite ou é demitido.

Esta entrada foi publicada em Imprensa, Jornalismo, Rádio, Sociologia dos Média, Televisão. ligação permanente.

4 respostas a A dança de cadeiras na comunicação social

  1. Pingback: Num jornal quem representa o quê? | VAI E VEM

  2. arber diz:

    AhAhAhAhAhAhAhAh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! a esta hora só o Heitor me faria rir à gargalhada!
    Tão entendido no assunto, poderia indicar-nos 1 (UM) órgão de CS, jornal, tv, rádio que tenha sido controlado pela esquerda nos últimos anos?! Ficamos à espera.
    Quanto ao David Dinis, se, como diz o post, o Público é o jornal tido como mais à esquerda, a sua entrada só pode significar que alguém o pretende “reeducar”… para a direita.

  3. Eduardo Gastão Ramos diz:

    Dizer que a esquerda tem controlado a CS é tão anedótico que provoca riso; o que seria interessante é que houvesse, simplesmente, jornalistas que fizessem jornais.

  4. carlos heitor diz:

    Claro presumo que seria mais interessante deixar a esquerda a controlar a CS conforme tem sido nos últimos anos…

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