A RTP à chegada de um novo director

André Macedo DNO jornalista André Macedo, até há pouco director do Diário de Notícias,  escreve hoje um artigo neste jornal intitulado “ A RTP: o que mudou”, em que responde indirectamente a críticas que lhe foram feitas por em tempos ter defendido que a RTP é dispensável e ir agora integrar a direcção de informação da estação pública.

No artigo de hoje, André Macedo assume que mudou de opinião e justifica essa mudança com o argumento de que o panorama mediático mudou e a RTP também, devido “às reformas feitas na empresa ao longo dos últimos anos – designadamente o Conselho Geral Independente” que permitem “uma maior blindagem às pressões”, as quais, reconhece o autor, também existem nos privados.

Ora, nada mais errado, porque não só não compete ao CGI proteger os jornalistas de pressões políticas e partidárias, como as pressões, quando existem, são geralmente feitas sobre os directores e hierarquias da redacção. A questão reside pois na capacidade destes resistirem ou não a essas pressões. Muitas vezes não lhes resistem, não por simpatias políticas ou partidárias mas para não perderem fontes que consideram importantes. A experiência recente mostra, aliás, que as pressões do poder económico e financeiro sobre os media, nomeadamente  sobre a imprensa, são muito mais fortes e eficazes do que as exercidas pelo poder político. Como especialista em jornalismo económico, André Macedo sabe  bem que assim é.

Deve também dizer-se, quanto a pressões políticas, que a RTP é talvez o único meio de comunicação social português em que os jornalistas denunciam publicamente e se queixam à ERC das administrações ou dos governos, precisamente porque sabem que quer aquelas quer  o “patrão” Estado não os despedem facilmente, ao contrário do que acontece nos privados, razão pela qual nunca, ou raramente, são conhecidas as pressões feitas pelos patrões dos meios privados aos jornalistas desses meios.

Outro factor de mudança no sistema mediático português que atingiu também a RTP, a meu ver negativamente, reside no facto de a estação pública ser demasiadamente igual às suas congéneres privadas, devido  em grande parte, por um lado, ao mimetismo das agendas, por outro, à pressão (essa sim) das audiências e, não menos importante, à circulação de jornalistas entre redacções, que conduz à homogeneização de opiniões, de estilos e de visões do mundo. A circulação de vedetas do jornalismo entre meios – da imprensa para a rádio e para a televisão e destas para aquela – conduz à não diferenciação, à falta de diversidade e de pluralismo da informação e da programação. Isto sim, prejudica a prestação do serviço público, tornando a RTP dispensável.

Quando hoje vemos Ana Lourenço,  na RTP3, vem-nos à lembrança os anos em que foi o rosto da  SIC Notícias. O estilo é o dela e é o mesmo de antes no outro canal. Quando José Alberto de Carvalho e Judite de Sousa nos entram em casa através da TVI, não vemos grande diferença com o tempo em que estavam na RTP. Eles são os mesmos e as notícias também. Não há ali, uma “marca” que distinga o “lugar” donde falam.

José Rodrigues dos SantosGoste-se ou não do estilo, concorde-se ou não com o posicionamento ideológico percebido, há que reconhecer que se alguém simboliza o canal público de televisão, esse alguém é José Rodrigues dos Santos, jornalista que nunca vimos ou ouvimos como comentador, analista ou colunista noutros meios, sejam jornais, rádios ou televisões. Num tempo em que a “marca” é um valor de mercado, talvez o serviço público de televisão devesse criar e preservar as suas “marcas”.

Esta entrada foi publicada em Imprensa, Jornalismo, Política, Rádio, Sociologia dos Média, Televisão. ligação permanente.

7 respostas a A RTP à chegada de um novo director

  1. nuno diz:

    Volto a insistir no entusiasmo de Macedo com Sócrates, parece que muitos insistem em escamotear isso por ignorância. Que associem antes Macedo ao neo-liberalismo deveria tilintar as campainhas de como alguns socialistas andam tão ligados a essa área.

  2. José Madeira diz:

    Pela primeira vez, não concordo com a autora do “post”! Jamais considero o J.R.Santos a cara
    da RTP para lá, da sua insistente demonstração de ser de direita (pode ser mas, não praticar)
    no exercício das suas funções de “transmissor” de notícias aos espectadores da RTP!
    Ficou bem dmonstrado pelo anterior comentador Paulo Renato, o que tem sido a saga da RTP
    desde os tempos do consulado cavaquista! Excelente apreciação!!!

  3. nuno diz:

    André Macedo foi um grande fã e defensor de sócrates

  4. Daniel De Castro Rocha diz:

    Canal publico não deve andar atrás de audiências

  5. Daniel De Castro Rocha diz:

    —Certo o canal público não deve preocupar-se com audiências

  6. nuno diz:

    Mas são esses os rostos que se querem? Nem no jornalismo, quanto mais nas televisões.

    http://jugular.blogs.sapo.pt/fascinante-3928351

  7. Paulo Rato diz:

    André Macedo integra a brigada neo-liberal que, desde há uns anos, tem levado a cabo a transformação dos “media” portugueses em porta-vozes da religião económica que professam. Essa transformação coincide, naturalmente, com a transumância desses “media” para pastagens cada vez mais à direita, o que se nota, muito nitidamente, nos jornais e revistas chamados “de referência”, com particular relevo no que se refere à “renovação dos cronistas”. O que André Macedo irá agora fazer para a RTP não me parece que se afaste da missão em que se tem destacado. Aliás, a “evolução” da sua opinião sobre o serviço público (SP) de rádio e tv deve-se, essencialmente, às mudanças introduzidas pelo endeusado “génio” (mas da lâmpada…) Poiares Maduro, que mais não fez do que prosseguir o plano de destruição deste SP, executado, ao ritmo das suas passagens pelo Governo, pelo PSD.
    Não esqueçamos que a famigerada “dívida” da RTP foi fabricada por Cavaco Silva, quando acabou com as taxas e não pagou as respectivas indemnizações compensatórias, além de ter obrigado a RTP a vender a sua rede de emissores por tuta-e-meia a uma estranha empresa (uma espécie de estartúpe “avant-la- lettre”), rapidamente engolida pela PT, passando a “vendedora” a alugar os emissores que eram seus a peso de ouro, num negócio da China, onde só falta saber quem lucrou com o que a RTP perdeu. Sabemos como a coisa prosseguiu – aproveitando as omissões (pelo menos e nos períodos mais benignos) das alternâncias PS -, com a dupla Barroso / Morais Sarmento e, finalmente, acabando em beleza (para os inimigos do SP), com Passos Coelho / Poiares Maduro, que deixaram assegurada a “sua” gestão da RTP. Agora, pelos vistos, reforçada, na execução, com mais um “entusiasta”, recém-convertido ao SP pela beatífica acção dos frades maduros, mais guiados pela fé cega numa ideologia do que por qualquer conhecimento discernível sobre o que é o SP, tal como nasceu e se desenvolveu nos países democráticos, onde a sua existência – ainda que afectada por crises económicas – nunca, que eu saiba, foi posta em causa, nem por governos de direita.
    Beatífica não consegue ser a prosa justificativa de André Macedo, que não me merece o menor crédito, por mui piedosa aproximação que a ela tente.
    Para além da errada caracterização das sua funções, refutada pela realidade exposta no artigo de Estrela Serrano, o tão louvado CGI é uma absoluta nulidade, integrado, eventualmente, por algumas excelentes, mas equivocadas criaturas que, sobretudo quando se apresentam como especialistas na área da comunicação social – como é o caso do seu presidente – não se alçam, em seus dizeres sobre a empresa, acima do ridículo.
    Numa deplorável entrevista feita pelo sorridente jornalista Vítor Gonçalves ao Presidente da coisa, ambos demonstraram não conhecer, sequer, o nome da empresa, quanto mais a empresa propriamente dita, espraiando-se amplamente (e mal, claro) sobre a componente televisiva, enquanto ignoravam, por completo, a radiofónica. De resto, essa entrevista serviu-me para ficar cabalmente esclarecido sobre o que era a tal coisa “independente”, matutada pelo ministro Maduro e adjacências, e sobre a sua utilidade, ou ausência dela.
    Até agora, a ReTdeP (Rádio e Televisão de Portugal) lá vai singrando, melhor do que em tempos mais recuados, mas pior do que já conseguiu ser, à custa do esforço dos seus profissionais mais qualificados e, sobretudo, mais devotados ao serviço público e à sua especificidade, que dificilmente se harmoniza com a chusma de adventícios que por lá vão sendo acolhidos, por razões que, quase sempre me escapam. E aproveito para lembrar que muitos desses profissionais de excelência que, na televisão e na rádio, vão defendendo a qualidade e a diferença do SP, não vêm o seu esforço reconhecido, como seria devido.
    Mas, por este caminho e com o que me parece um excesso de tripulação mercenária de que se vai dotando, ao invés de se ocupar da formação de profissionais dedicados ao SP, de criar e preservar as suas “referências” (melhor que as malfadadas e banalizadas “marcas”, jargão de marquetingueiros ignaros, que melhor se adequam a detergentes e relógios suíços…), temo que, em breve, perca o que foi conseguindo construir e enverede pelos caminhos que conduzam minimização da sua influência na sociedade portuguesa, em prol da “libertação de audiências” que os operadores privados ambicionam, de acordo com os planos pêessedistas.

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