O que a entrevista de António Costa à RTP diz sobre a “cultura jornalística”

costa-entrevista-rtpA entrevista do primeiro-ministro à RTP e os comentários que se lhe seguiram no painel de jornalistas do canal RTP3 foram elucidativos sobre algumas das características da chamada “cultura jornalística”. Desde logo, foi visível uma atitude adversarial em relação ao governo, mostrando que não ultrapassaram a frustração causada pela incapacidade de preverem que a solução pós-eleitoral podia ser diferente daquela que esperavam e lhes parecia natural, isto é, um novo governo PSD/CDS.

Depois, a incapacidade de explorarem as próprias respostas do PM às suas questões, presos à sua própria agenda, como foi o caso quando Costa afirmou sobre a CGD que “o que aconteceu, seguramente, no passado, foi maquilhar uma situação que permitisse anunciar uma saída limpa” –  uma afirmação grave que teria merecido réplica dos entrevistadores. Ao contrário, os jornalistas deixaram cair o tema, insistindo em perguntas que não podiam ter resposta cabal e peremptória visto encontrarem-se em desenvolvimento, como, por exemplo, o resultado da auditoria em curso na CGD ou matérias em discussão em sede de concertação social.

Noutros casos, queriam que o PM respondesse por outros, por exemplo, que dissesse porque é que António Domingues se demitiu da CGD, insistindo em que não se sabe porque é que Domingues se demitiu apesar de o documento divulgado pelo Expresso ser bem claro quanto às razões que precipitaram a demissão. Costa respondeu, naturalmente, que perguntassem ao próprio. Mas os jornalistas (e a direita) querem mais como se depois do “turbilhão mediático” (palavras do citado documento) e das pressões presidenciais, políticas e partidárias em que a administração da Caixa foi envolvida lhes restasse alguma hipótese de continuarem.

Foi também notória a impaciência dos jornalistas quando Costa tentava enquadrar política e historicamente algumas respostas remetendo para o programa do governo ou, no caso da dívida, para a “série longa” ou, ainda, para os acordos com os parceiros parlamentares. Aí o nervosismo dos jornalistas foi notório não querendo ouvir o PM, ou porque “os portugueses já sabem” ou porque “o tempo está a passar e temos ainda muitas questões para colocar”.

Evidente foi também a constatação de que passado um ano de governo se mantém a incompreensão dos jornalistas pela solução governativa a que chamam “geringonça”, patente na dificuldade de perceberem a filosofia do modelo, bem explicada e defendida por Costa (e por Jerónimo de Sousa na Congresso do PCP), isto é, que o que está acordado entre as partes está a ser cumprido e o que não foi acordado é da responsabilidade de cada um e não afecta o apoio ao governo por parte dos parceiros. Para os jornalistas, as diferentes posições dos parceiros sobre a Europa ou a dívida, constitui sinal de problemas e fracturas. Ora,  talvez  pudessem antes ter perguntado se, no fundo, não será até útil ao PS e a cada um dos partidos que sustentam o governo, salientarem as suas diferenças, mostrando assim perante os seus apoiantes fidelidade à respectiva identidade

Se recordarmos as críticas feitas pelos dois jornalistas que agora entrevistaram o PM ao encontro do governo com os cidadãos, podemos dizer que neste caso, foram os jornalistas que não foram capazes de dar repto às respostas do primeiro-ministro. A administração demitida da Caixa Geral de Depósitos parece ser o tema mais importante da agenda jornalística (tal como o é também  da agenda do PSD).

Nesta entrevista à RTP a mediação jornalística funcionou a favor do primeiro-ministro visto que o contraditório jornalístico revelou ideias-feitas e ideias fixas . “Não houve “cachas” dizia um jornalista esta manhã na Antena 1. Pois não, nem podia haver, uma vez que os entrevistadores não pegaram nas pistas que Costa foi deixando. Ficaram na sua….

 

 

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