A queda do líder que esperou em vão pelo diabo

Passos profetaDemasiadas vezes o jornalismo tem andado a reboque dos acontecimentos, alinhado com o pensamento dominante, alimentando-se de fontes que lhe garantem a proximidade com o poder, incapaz de antecipar situações e desenterrar o que existe por detrás da espuma dos dias. Foi assim no BES, e em todo o sistema financeiro, como aliás, se conhece agora no caso da Caixa Geral de Depósitos.

Enquanto foi primeiro-ministro, Passos Coelho foi poupado pelos jornalistas que  alinharam no “não há alternativa” ao seu programa de austeridade e de empobrecimento dos portugueses. Demoraram a reconhecer o que era evidente e que neste artigo no Público de hoje Manuel Carvalho deixa escrito: Eis alguns excertos. 

(…) Hoje não sabemos bem quem ele [Passos Coelho] é e ainda menos o que tem para propor – porque, mal ou bem, goste-se ou não, nos primeiros anos do seu mandato no PSD e em São Bento, Pedro Passos Coelho tinha na cabeça uma ideia e um plano para o país. Para ele, a crise era uma oportunidade para Portugal se libertar das amarras do Estado, para que se criasse uma nova geração de cidadãos e de empresas que não fossem “piegas”, que arregaçassem as mangas e voltassem a mostrar a coragem e a ousadia dos descobridores quinhentistas. Ir além da troika era em si mesmo um programa de transformação. Medidas duras de austeridade, privatizações, liberalização do mercado de trabalho ou a liberdade de escolha na educação eram apenas danos colaterais dessa visão revolucionária.

“Esse” Passos não existe. O homem assertivo tornou-se um político mole, que age de acordo com as sondagens e o politicamente correcto. O famoso “que se lixem as eleições” tornou-se letra morta quando as eleições de 2015 ficaram à vista. O liberal duro reconverteu-se à social-democracia. Negócios cruciais para o país, como o das imparidades da Caixa Geral de Depósitos, foram simplesmente varridos para debaixo do tapete. O Banif foi tratado com aspirinas. A saída limpa do ajustamento tornou-se uma obsessão perante a qual todas as urgências se dissolveram. A disputa de votos com o PS levou-o ao leilão do fim dos cortes dos salários ou das pensões. Depois, na oposição, Passos chega a perguntar ao primeiro-ministro por que não aumenta mais depressa as pensões; insurge-se contra os salários dos gestores da Caixa calculados em função das regras do mercado, quando o seu Governo defendeu essas regras.

A crença na vinda do diabo foi o seu maior erro. Ao esperar por esse dia, acreditou que bastava ficar quieto até que o inferno devorasse o Governo e a aliança à esquerda. Nunca se empenhou em desenhar uma estratégia consistente e alternativa. Tornou-se uma cassete repetitiva. Em episódios negros da vida do Governo, como as mudanças dos exames escolares, as 35 horas ou na infame história da Caixa, Passos falou, mas, como acontece aos líderes em perda, ninguém o ouviu – porque a sua palavra perdeu sentido. Se o diabo era a catástrofe, erros desse quilate não passam de um preço baixo a pagar por um governo normal. Incapaz de um discurso alternativo,

(…) Passos tornou-se um líder errático. Sem conseguir uma oposição coerente e consistente, limitou-se ao papel de franco-atirador.

(…)  O seu tempo esgota-se. Talvez cedo de mais. Talvez injustamente. Talvez um dia volte a ser reconhecido pelo que fez por deliberação e teve de fazer por imposição da troika. Para o conseguir, terá de recuperar o capital político que perdeu este ano. Um período de pousio talvez lhe faça bem.

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5 respostas a A queda do líder que esperou em vão pelo diabo

  1. manuel.m diz:

    Não, Passos Coelho não tinha na cabeça um plano para Portugal: Quem tinha era Wolfgang Schauble.

  2. nuno diz:

    Manuel Carvalho está triste. Continua à espera de um político duro e conservador que lhe encha as medidas, despeça funcionários públicos e baixe os salários. Talvez agora comece a polir o lustro a Rui Rio

  3. tordo1948 diz:

    E apesar de tudo, ainda fica um conselho, um palpite, uma pequena ajuda para a recuperação de um político medíocre, mentiroso compulsivo, vendido aos rigores da Merkel para ser eleito. Apesar de tudo, todos os dias Passos Coelho. Como se, apesar de tudo, ele ainda tenha uma vaga hipótese se conseguir emendar uns pequenos defeitos. Criticar a imprensa que o fabricou e apoiou e vir depois escrever este artigo é o maior sinal de quanto ele pesou, o diabo Passos Coelho. Ftordo

  4. JR diz:

    – como é que este garoto continua a ter a maior parte dos jornalistas (das televisões, das rádios e dos jornais) nas mãos? São mais garotos do que ele? Estão a defender os salários milionários, pensando que é com ele que os mantêm? São mercenários e vigaristas?

  5. joshua diz:

    O Diabo é muito mentiroso. Dizem que afinal não veio, mas anda por aí.

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