Mário Soares, um testemunho muito pessoal

foto de Marcos Braga, revista Visão

foto de Marcos Braga, revista Visão

A morte de Mário Soares causa-me um sentimento de impotência que me dificulta o distanciamento necessário para falar do “homem político”, do “pai da democracia” ou do  “amante da liberdade” que todos, e eu também, reconhecem nele. Por isso, não vou repetir o que tantos disseram já sobre o que ele representa para o nosso País. Isso a História registará. Mas tendo convivido intensamente com ele nos 10 anos da sua Presidência guardo desses anos memórias impressivas e como tal difíceis de verbalizar. Talvez se eu fosse poeta e juntasse as palavras que me ocorrem saísse um poema…   Liberdade, coragem, intuição, alegria, destemor, audácia, desafio, provocação, fúria, ternura, curiosidade, força, teimosia, visão, esperança, capricho, descoberta….. Não o sendo, resta-me tentar um testemunho muito pessoal, memórias que guardo dele.

O que me fascinava em Mário Soares era o seu espírito indomável, a vontade de vencer obstáculos, a capacidade de surpreender e estar sempre alguns passos à frente do momento presente. Quando, como era seu hábito naqueles tempos, me chamava para saber “novidades” sempre me surpreendia a sua capacidade de dar sentido ao que parecia insignificante. Aprendi com Mário Soares que a política é uma arte que requer vocação, sensibilidade e carisma, características que ele aliava a uma cultura humanística ímpar que o fazia sentir-se melhor entre escritores e artistas do que entre engenheiros ou empresários.

A sua curiosidade permanente e o seu interesse pelas pessoas levavam-no a dizer que gostaria de ter sido jornalista e talvez por isso procurava o convívio com eles quer em deslocações no país e no estrangeiro, em actos oficiais ou em encontros informais, onde deliciava todos com as suas fantásticas histórias de vida. O carro oficial durante uma deslocação, a mesa do restaurante, um passeio a pé, eram lugares disponíveis para uma entrevista, uma confidência, uma conversa.

Mário Soares era um “modelo” apetecível para repórteres de imagem, nunca se furtando a solicitações para um bom “boneco”, alguns destes deram a volta ao mundo, fosse na Índia em cima de um elefante, nas Seychelles em cima de uma tartaruga, na praia do Vau cumprimentando uma banhista em topless ou dormitando numa sessão solene. E quando algum de nós o advertia para as críticas dos mais puritanos dizia, desprendido, “deixe lá, isso não tem importância nenhuma”. Nunca aliás deixou de ser ele próprio mesmo quando, no início do primeiro mandato presidencial a sua Casa Militar tentou, por exemplo, que o seu caminhar bamboleante e informal se adequasse à “revista às tropas” numa parada militar.

Mário Soares era além de um político de dimensão superior uma personalidade fascinante, a um tempo afectivo e colérico, capaz de ser muito duro com um seu colaborador para logo a seguir se espantar se este se mostrasse magoado ou ofendido. Não conheci rancores a Mário Soares. Mas se um amigo lhe faltasse com a lealdade que esperava dele, não esquecia facilmente. Estimava os seus colaboradores mantendo com eles uma relação não apenas profissional, interessando-se genuinamente por conhecer os seus familiares. Quase no final do segundo mandato convidou para Nafarros os seus assessores e respectivos cônjuges a quem depois de um simpático almoço guiou numa visita aos jardins criados pelo seu grande amigo, arquitecto Ribeiro Teles, explicando detalhadamente cada árvore e cada planta, espantando os convidados com os seus conhecimentos sobre agricultura e botânica e com o seu amor pela natureza.

Ficam célebres as suas sestas no Palácio ou durante as presidências-abertas em casas particulares de pessoas comuns que conhecendo esse seu hábito ofereciam as suas casas para o Presidente descansar. Apreciador da boa comida, preferia um arroz de tomate com pataniscas a um sofisticado pavão servido num jantar de gala. Apesar dos seus gostos simples era exigente em pequenas coisas, como os ovos estrelados que tinham de ter a gema mole e a clara firme e que não poucas vezes mandou para trás em restaurantes de estrada onde parávamos para uma refeição mais rápida durante uma deslocação no país.

Mário Soares nunca foi moldável a técnicas de comunicação e se aceitava que algum assessor aconselhasse a cor da gravata mais adequada a um cenário para uma entrevista televisiva, era impossível fazer com ele o chamado “media training”. A comunicação era para Mário Soares como o ar que respirava. Era um comunicador nato que fazia vibrar a assistência quando discursava como quando relatava uma das muitas histórias que viveu.

A História não registará muitas das facetas do seu caracter e da sua personalidade. Mas os que com ele conviveram em diferentes fases da sua vida guardarão memórias de um homem a quem ninguém podia ficar indiferente.

(depoimento prestado ao jornal electrónico Acção Socialista Digital)

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Uma resposta a Mário Soares, um testemunho muito pessoal

  1. Não sei descrever o quanto senti o desaparecimento físico de Mário Soares. Viverá sempre na minha memória. Nunca tive oportunidade de o conhecer pessoalmente, mas ” tenho” por ele, pelo Homem que foi e pelo que fez, uma admiração, uma consideração, uma simpatia, que enquanto viver me acompanhará sempre. QUE DESCANSE EM PAZ É O QUE AGORA LHE DESEJO.

    ChUBET

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