Jornalistas em congresso

congresso-dos-jornalistasComeçou hoje o 4.º Congresso dos Jornalistas portugueses, dezoito anos depois do último. Este longo período, em que a classe não quis ou não foi capaz de se organizar para debater em conjunto os problemas da sua profissão seria, por si só, motivo de reflexão. O facto de a actual direcção do Sindicato ter conseguido ultrapassar esse longo “silêncio” e  ter chamado a Casa de Imprensa e o Clube de Jornalistas para co-organizarem este Congresso merece por isso referência.

Os jornalistas nunca foram um grupo profissional homogéneo, desde logo pela natureza do trabalho que realizam, muito baseado na concorrência como é próprio de uma sociedade em que existe liberdade de criação de empresas de comunicação social e em que os novos media  tornaram essa concorrência ainda mais acentuada. Algumas discussões antigas que chegaram até hoje sem solução, como sejam a  auto-regulação dos jornalistas ou a criação de uma Ordem, contribuíram para dividir a classe, independentemente de os jornalistas serem também acusados de corporativismo perante críticas externas.

A avaliar pelos temas dos painéis o Congresso  procura cruzar a discussão das actuais condições de trabalho dos jornalistas com questões relacionadas com a prática do jornalismo, com maior incidência nas condições de trabalho. Dada o vasto número de oradores e a abrangência dos temas, o principal desafio será extrair das intervenções ideias-chave que possam transformar-se em propostas exequíveis para melhorar quer as condições de trabalho quer as práticas do jornalismo.

Teria, a meu ver, sido útil e desafiador organizar um painel de “case studies” para apresentação e debate de casos concretos e polémicos que confrontassem pontos de vista e obrigassem a separar as águas entre o jornalismo e as suas corruptelas. De facto, o Congresso não pode ignorar casos de atropelos à ética e à deontologia, de promiscuidade entre jornalismo e poder económico e judicial, de ausência de pluralismo e diversidade na escolha de comentadores e analistas da área política e económica, de mimetismo entre as agendas dos diversos meios, de sedução do jornalismo pela informação-espectáculo.

Os dados conhecidos de inquéritos à classe preparados para o Congresso revelam uma situação inquietante que aliás não é nova mas que não pode servir de justificação para a deriva do jornalismo e para a sua perda de credibilidade. A luta por condições de trabalho justas – salário, tempo para investigação, protecção social – tem de ir a par da recuperação dos valores da independência, rigor, isenção, distanciamento face às fontes, procura da verdade, que fizeram do jornalismo um caminho da democracia, porque não há democracia sem jornalismo livre e independente nem jornalismo livre e independente sem democracia.

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2 respostas a Jornalistas em congresso

  1. F Soares diz:

    Houve gaffes do arco da velha na cobertura: confundir museu de arqueologia ( nos jJerónimos) com museu de arquitetura ( foi depois corrigido, passados segundos); “transferência dos restos” , referencia que teve de ser corrigida por “restos mortais” (corrigido por FC Ferreira); incapacidade de distinguir turistas de portugueses para entrevista de rua junto aos Pastéis de Belém (, duas vezes); a insistência ( pura fixação !) em perguntas. à porta do Cemitério, a políticos, para saber da sua opinião sobre a quantidade de pessoas na rua à passagem do funeral ( N vezes…), até parecia que tinha serviço encomendado; mostra que, atualmente , colocam na rua , com microfone , em direto , pessoas que por muita vontade que tenham , ainda não têm capacidade para trabalhar sem ser apoiadas…. Isso não abona a comunicação social. Nem tudo é futebol….há outros acontecimentos que também é preciso relatar…

  2. MRocha diz:

    Um dos “case studies” em agenda poderia bem ser a cobertura da RTP 1 ao Funeral de Estado de Mario Soares, onde nem sequer faltaram os intervalos publicitários para promoção do calcitrim e das cintas lombares. Curioso que ninguém fale disso. Deve ser desta “normalidade” de “reality show” a que nos acostumaram.

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