Contra a “pós-verdade” e os “factos alternativos”… talvez um jornalismo alternativo.

porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer

porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer

O jornalismo tal como é entendido nas sociedades democráticas enfrenta uma das suas maiores crises. Não falo da crise económica das empresas jornalísticas mas sim de uma crise mais grave que é a perda de credibilidade,  porque esta atinge os fundamentos e a  razão de ser do jornalismo cuja legitimidade advém do contrato de confiança entre o jornalista e os seus públicos.

A eleição de Donald Trump agravou e veio dar substância às teorias da “pós-verdade” e dos “factos alternativos” que embora não tenham nascido com ele, encontraram na nova administração americana terreno fértil e seguidores capazes de as elevarem a doutrina oficial. De facto, as teorias sobre a “verdade” e a “mentira” não são de hoje e os teóricos da comunicação política  há muito que se debruçam sobre as “nuances” de cada um destes conceitos.

Paradoxalmente, esta é também uma oportunidade para o jornalismo repensar muitas das suas práticas e regressar a alguns dos princípios básicos de que anda arredado, tais como:

  • organizar uma agenda que identifique temas-chave que favoreçam o bem-estar dos cidadãos, em vez de andar atrás dos detentores dos poderes reproduzindo soundbites e declarações  de circunstância;
  • favorecer e respeitar o diálogo entre diversos pontos de vista e entre representantes do poder e os públicos;
  • procurar a verdade, considerarndo todos os factos, perspectivas e alternativas;
  • ter consciência da falibilidade e limitação do seu próprio conhecimento, o que pressupões humildade e auto-crítica;
  • analisar criticamente os paradigmas dominantes;
  • gerar novas ideias e abrir-se à discussão, em vez de se limitar a uma elite de comentadores que reproduz a agenda política e mediática;
  • vigiar os mecanismos de responsabilização dos altos funcionários do Estado sobre a forma como exercem o poder, em vez de ficar dependente de fugas de informação de agentes da justiça, colocando estes também sob escrutínio;
  • dar voz aos cidadãos para que se envolvam no debate público;
  • resisir a forças externas aos media, que possam subverter a sua independência, integridade e capacidade para servir o público.

Estas são apenas algumas achegas para o que poderia ser um jornalismo alternativo contra  a “pós-verdade” e os “factos alternativos”…

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2 respostas a Contra a “pós-verdade” e os “factos alternativos”… talvez um jornalismo alternativo.

  1. Estes princípios básicos são de facto a música que eu gostaria de ver tocada por qualquer jornalista. A minha comichãozinha: Quem é o dono do instrumento? Desculpe se estou a tocar num tabu.

  2. Embora leitor sem pretensões, não deixo de dar a minha opinião (por alto….) sobre o momento
    que o nosso jornalismo atravessa. Estou absolutamente de acordo quando se diz que o jornalista deve”gerar novas ideias e abrir-se à discussão, em vez de se limitar a uma elite de comentadores que reproduz a agenda política e mediática”. Só que na minha modesta opinião , o que prejudica mais o jornalismo, é a Net e um mesmo jornalista a escrever em dois ou três jornais sobre o mesmo assunto, esforçando-se, embora com dificuldade, por o fazer de forma diferente em cada um deles.
    Não sou jornalista nem tenho categoria ou ambições para tal, mas o respeito e admiração que tenho pelos que o são, faz com que me custe esta situação. Felizmente que começa a aparecer quem reme contra a maré. Quem não se limite só a comentar o que vem na Net e seja criativo.
    Carlos Patrício Álvares (Chaubet)

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