Quem é que quer fazer do ministro o bode expiatório?

centeno-e-cgdA “novela” da Caixa Geral de Depósitos (como a titulam alguns jornalistas, mostrando bem a seriedade com que encaram a discussão sobre o que o ministro Centeno prometeu ou não prometeu a António Domingues), revela em parte porque é que o jornalismo e a politica perderam credibilidade. Senão vejamos:

Um jornal tem acesso a uma “carta” que lhe vem de uma parte interessada num confito entre duas partes, uma das quais é um ministro e o governo, e publica-a como um grande “exclusivo” tomando imediatamente partido a favor da parte que lhe deu a informação. Depois, através de títulos bombásticos e de ocupação de espaços de comentário noutros media, por exemplo, nas televisões, esse jornal já não consegue manter qualquer distanciamento  em relação à informação (como compete a um jornal) e torna-se parte interessada no conflito, tomando partido ao lado de quem lhe deu a “carta”.

Uma vez espalhada a informação, surgem os partidos que engrossam a voz a pedir aquilo que o tal jornal não se atreve a pedir abertamente, isto é, a demissão do ministro “culpado” ou mesmo do governo todo. Os outros media não querem ficar de fora  da contenda nem parecer que apoiam o lado “mau”, isto é, o  ministro e o governo. Mesmo que a informação do tal jornal não lhes pareça convincente, alinham também na gritaria e tentam encontrar outras fontes que confirmem que o tal ministro ou o governo todo “não têm condições para se manterem em funções”. Na melhor das hipóteses, surge um jornalista mais corajoso que se atreve a questionar a gritaria dos seus confrades e começa a perguntar se será mesmo assim como os outros estão a dizer que é.

E se não conseguirem mais informações “secretas” que provem a “culpa” do ministro e do governo, então outros jornais ou rádios ou televisões “descobrem” que o governo consultou ou contratou escritórios de advogados para produzirem pareceres sobre leis etc. ,(grande descoberta!. Não sabem os pobres coitados que em alguns casos é mesmo obrigatório os serviços públicos recorrerem a pareceres externos, precisamente para garantir a independência desses pareceres!).

Resumindo e concluindo, temos a história em poucas palavras:

O governo convidou para dirigir a Caixa Geral de Depósitos um gestor credenciado que pediu determinadas condições, entre as quais algumas relacionadas com a remuneração e a alteração do estatuto de gestor público, baseado em argumentos de que assim melhor se serviriam os objectivos fixados, tendo em conta a situação de mercado concorrencial em que a Caixa se insere. O governo aceitou e consumou a alteração do estatuto do gestor público o qual, segundo os juristas do governo e do escritório que assessorou o gestor,  implicaria a não obrigatoriedade de apresentação de declaração de património ao Constitucional.

Esta presunção foi tomada como ponto assente pelo gestor com base em pareceres jurídicos. Eis porém que o Parlamento impõe a obrigatoriedade de os gestores da Caixa apresentarem a declaração do TC. Cai então o Carmo e a Trindade e o gestor culpa o governo por não ter antecipado que o Parlamento e o Presidente da República iriam contrarir a opinião dos juristas que se esqueceram que havia uma lei anterior a sobrepôr-se à lei que alterou o estatuto do gestor público.

Quem mentiu? Ou alguém mentiu? Não terá havido antes excesso de confiança do gestor nos seus juristas, de que ficaria isento de mostrar o seu património ao Constitucional? Quem é que quer fazer do ministro o bode expiatório? Será que os que dão as cartas  “secretas” a jornalistas amigos estão a servir-se destes para salvar a face?

Venham mais cartas, emails  e outros  documentos “secretos”, por exemplo, sobre a “saída limpa”, sobre os anos da troika, sobre as ligações entre jornalistas e banqueiros, gestores e outros, desde logo no caso BES (ai se Ricardo Espírito Santo falasse sobre isto…)

Quem fica a perder com tudo isto? Desde logo, nós, cidadãos, mas também o jornalismo, a política e, sobretudo, a democracia. Não é pouco!

 

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Uma resposta a Quem é que quer fazer do ministro o bode expiatório?

  1. António Luzio diz:

    “…iriam contrarir a opinião dos juristas que se esqueceram que havia uma lei anterior a sobrepôr-se à lei que alterou o estatuto do gestor público.” – E que o Pai Natal todos os anos me entra pela casa a dentro. Haja paciência quando não há honestidade

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