Políticos em trajes menores

Era inevitável que Santana Lopes reagiria às referências que lhe faz Jorge Sampaio no livro do jornalista José Pedro Castanheira (JPC) . Confesso que se não conhecesse a seriedade pessoal e profissional do José Pedro duvidaria da fidedignidade das palavras atribuídas a Sampaio ainda que estas surjam entre aspas. É que a ideia que tenho de Jorge Sampaio quer como político, jurista, e principalmente como Presidente da República é a de alguém a quem nem em conversa informal com um jornalista diria de um primeiro-ministro com quem trabalhou institucionalmente que estava “farto” dele. E, no entanto, é assim que Sampaio-Presidente se refere a Santana Lopes-primeiro-ministro no livro  “Jorge Sampaio – Uma biografia” , que JPC acaba de publicar e o Expresso reproduz:

“Fartei-me do Santana como primeiro-ministro, estava a deixar o país à deriva – mas não foi uma decisão ad hominem. (…) Hoje faria o mesmo. De vez em quando é preciso dar voz ao povo – e percebi qual era o sentimento do povo.”

Mais chocante ainda (para mim que trabalhei 10 anos com o Presidente Mário Soares) são as citações (outra vez com aspas, sinal da sua fidelidade às palavras ditas pelos autores) dos “conselhos” que os assessores de Jorge Sampaio lhe deram sobre a hipótese de demissão do então primeiro-ministro Santana Lopes. Cita o Expresso a partir do livro de JPC:

“Carlos Gaspar: “[Santana] é muito irresponsável e instável”. Salgado de Matos: “Ou ensandeceu ou quer eleições antecipadas”. João Bonifácio Serra: “O principal problema é a sua personalidade e desequilíbrio”. General Faria Leal: “É propenso a acidentes” e o Governo “está sempre metido em complicações”. Marques da Costa: “É preciso que se mostre que não há espaço para mais episódios burlescos”. Nuno Brederode Santos: “Gostaria que fosse este episódio da demissão a razão para a dissolução”, Santana “é errático, irresponsável e imoral com zero sentido de Estado”. José Manuel dos Santos: “O Governo desmoronou-se”. Magalhães e Silva: “O ministro não presta e não pode estar vitimizado”, “é preciso cortar com a degradação”.

Das duas, uma: ou o Presidente Sampaio valorizava a tal ponto, e valoriza ainda hoje, as opiniões dos seus assessores que sentiu necessidade de os citar (certamente a partir de apontamentos que guardou) a propósito de uma das mais importantes decisões dos seus mandatos – a demissão do primeiro-ministro; ou fá-lo para justificar uma decisão que só a ele competia independentemente dos conselhos e opiniões que recebesse.

E será que o Presidente Sampaio consultou os assessores antes de divulgar ao jornalista o que lhe foi dito por eles nessa precisa ocasião? Como não conheço o livro de JPC não sei se  Sampaio cita conselhos que recebeu dos assessores a propósito de outras decisões que tomou enquanto presidente. Ora, a função dos assessores é precisamente aconselharem o presidente com base em análises e estudos que o ajudem a tomar decisões. É um trabalho de rectaguarda, permanente e discreto. O protagonista é o Presidente, não os assessores, e digam eles o que disserem ao Presidente só o Presidente decide e a sua opinião é a única que conta para a História.

Como investigadora na área da comunicação política reconheço a importância das auto-biografias e de relatos biográficos de personalidades que exerceram funções políticas e altos cargos no Estado. É evidente que um historiador e um analista usam metodologias de investigação que lhes permitem confrontar relatos, enquadrá-los no contexto em que foram produzidos e separar o trigo do joio.

Mas o que estamos a verificar é que os escritos biográficos e memoriais que vamos conhecendo, de Cavaco e agora de Sampaio (posso estar a ser injusta dado que não conheço o livro mas apenas os excertos citados nos jornais), não parecem contribuir para um melhor conhecimento dos seus “tempos” presidenciais. Parecem antes escritos para despertarem o interesse do público, isto é, dos media,  e não o interesse público, isto é, o conhecimento do pensamento e das motivações e princípios que ditaram as suas acções/decisões enquanto altos magistrados da nação.

Seria um sinal muito negativo que os Presidentes e outros ex-detentores de cargos políticos enveredassem agora por um strip-tease ou uma espécie de exposição em “trajes menores”.

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