Comentarismo televisivo-futebolístico

Causou escândalo nos meios do comentarismo televisivo-futebolístico a divulgação pelo diretor de comunicação do FC Porto, de documentos que seriam passados a “comentadores do Benfica”, com temas e argumentos para debates nas televisões.

A questão é interessante e tem várias pontas por onde se lhe pegue. Desde logo, saber o que significa ser “comentador do Benfica” (ou do Porto ou do Sporting). Serão adeptos indicados pelos clubes? Ou são as televisões que os escolhem por sua iniciativa e de acordo com as simpatias clubísticas que lhes conhece? E as posições desses comentadores vinculam os respectivos clubes?

Ora, se os comentadores são escolhidos em função dos clubes a que pertencem, quer os representem ou não oficialmente, não se vê porque será um escândalo que os clubes lhes forneçam argumentários para os debates. Independentemente da qualidade desses argumentários eles provam um certo grau de profissionalismo dos gabinetes de comunicação dos clubes.

A questão, a meu ver, não é essa, mas sim o facto de as televisões ao escolherem “militantes” (oficiais ou oficiosos) dos clubes para comentadores favorecerem  as polémicas e as intrigas clubísticas que preenchem grande parte dos espaços de debate em detrimento de uma discussão mais profunda e elevada sobre o o desporto enquanto fenómeno cultural, social e económico de grande importância na educação e no lazer dos portugueses.

Mutatis mutandis, os clubes de futebol usam processos idênticos de preparação dos seus comentadores televisivos aos usados pelos  partidos políticos em campanhas eleitorais fornecendo argumentários aos seus militantes para defesa dos respectivos pontos de vista. Não há nisso qualquer escândalo.

Há porém um lado escondido e perverso nesta matéria. É que, se é normal que os clubes e os partidos forneçam argumentários aos seus representantes nos debates televisivos,  já não o é quando comentadores supostamente independentes recebem “dicas”, “instruções”  ou “recados” de representantes de poderes ou de interesses, sem o assumirem.

Seria muito mais transparente e próprio de uma democracia avançada que os comentadores televisivos oriundos do desporto, da política ou de qualquer área do conhecimento fossem escolhidos pelas suas competências profissionais ou académicas e não por representarem aquele clube ou aquele partido político.  O contrário é fazer de cada debate, desportivo ou político, um campo de disputa para um campeonato ou uma eleição.

No futebol, onde as paixões são mais agudas e à flor da pele, o calor televisivo dos debates contamina o comportamento das claques.

 

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2 respostas a Comentarismo televisivo-futebolístico

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