A treta de o mérito ser “de todos”

O Presidente já tinha dado o mote para o branqueamento do mérito quando disse que  “é preciso evitar perder tempo a discutir quem teve mérito” no crescimento económico do país. E antes que o governo e os partidos que o apoiam tivessem a veleidade de reivindicar o mérito de o País ter hoje saído do “Procedimento por Défice Excessivo”, o Presidente correu a publicar uma nota oficial a felicitar  António Costa e  Passos Coelho pelo “trabalho dos respectivos Governos que permitiram a decisão hoje tomada pela Comissão Europeia”.

A teoria presidencial sobre o “mérito” branqueia os erros cometidos pelo governo anterior e por todos os analistas e comentadores que defendiam que não havia alternativa à austeridade que tanto sofrimento causou aos portugueses. Ora, ao contrário dos pressupostos da teoria presidencial, o sofrimento dos portugueses foi-lhes imposto pelo governo anterior que se tivesse continuado em funções aplicaria as mesmas políticas e a mesma defesa da austeridade para a qual defendia não haver alternativa.

Neste, como noutros casos, o mérito deve ser atribuído a quem o merece. Atribuí-lo a todos é não o atribuir a ninguém. Entre o governo de António Costa e o de Passos Coelho ou entre as políticas de Mário Centeno e de Vítor Gaspar vai um oceano de diferenças. Anulá-las é negar a realidade, precisamente o que o Presidente pediu que não fosse feito mas que ele fez com a sua teoria do mérito.

Pode perceber-se que o Presidente não queira hostilizar a direita elogiando o governo. E compreende-se também que depois da posição infeliz que tomou relativamente a Mário Centeno por causa da anterior administração da Caixa Geral de Depósitos, não queira agora elogiar o seu papel nos resultados obtidos. Mas imaginemos que a teoria presidencial do branqueamento do mérito se alargava a outros sectores da vida nacional. Teríamos os portugueses responsáveis pela vitória de Salvador na Eurovisão, no campeonato europeu de futebol e por aí adiante.

Uma coisa é o mérito das políticas adoptadas pelo governo, ou o mérito de Salvador Sobral e da selecção nacional serem vitórias de Portugal e dos portugueses, outra coisa é afirmar que elas são mérito de todos nós, retirando-o a quem, de facto, o merece.

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4 respostas a A treta de o mérito ser “de todos”

  1. José Brás diz:

    Pois Miguel! Ele há cada …

  2. José S. Mendes diz:

    Este PR até me estava a surpreender obviamente pela positiva, mas com esta divisão do mérito da saída do Procedimento Por Défice Excessivo, trouxe-me à memória algo como: Eu tambem tinha 2 primas lindas todos os dias e, nunca quis dizer qual era a melhor para poder contar com as duas e, assim evitava estar mal com os homens por amor a deus, ou mal com deus por amor aos homens. Pelo que certamente vai deparar-se mais vezes com a velha questão de não poder simultaneamente agradar a gregos e troianos. Dito isto, quer-me parecer que o PR deu a mais límpida e clara imagem de puro aprendiz em matéria de justiça Salomónica.

  3. Antonio Adao diz:

    O Miguel confunde alhos com bugalhos. Comparar a atual situação com a anterior é como comparar o céu com o inferno que nós sofremos no governo anterior no qual o nosso tecido económico foi esfrangalhado a torto e a direito e se a pÁf, Coelho e companhia continuasse seria a miséria total só comparada com a do antigo regime. Hoje respira-se crescimento, desenvolvimento , exportações, otimismo mundialmente reconhecido á Geringonça, que foi ela que conseguiu levantar este país da derrocada final. A sua azia é igual á do destrambelhado Passos e companhia

  4. Miguel diz:

    Em que mundo é que a senhora vive? É que no meu, a austeridade não só continuou como ainda aumentou. O ISP aumentou, o IUC aumentou, o IMI aumentou, os impostos de selo aumentaram, os impostos sobre tabacos, refrigerantes e outros aumentaram mantendo-se todos os outros anteriores. Qual foi o outro caminho alternativo à austeridade? Não dei por ele e quem frequenta hospitais e escolas sente a austeridade mais do que antes.

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