Lemos notícias bombásticas e irresponsáveis, algumas constituindo-se como autênticas sugestões sobre como utilizar o material roubado. 

Os momentos de crise não põem à prova apenas os governantes. Põem também à prova  algumas corporações e instituições. A actual crise  provocada pelos incêndios de Pedrógão Grande e pelo roubo de armas em Tancos está a ser um desafio para o jornalismo e para a instituição militar, confrontando-as com fragilidades e contradições internas e externas.

Quem acompanha a actualidade nacional através dos media verifica, no caso do jornalismo, que em geral não tem sido capaz de separar opiniões, convicções e preconceitos pessoais e ideológicos faltando-lhe  lucidez e equidistância na cobertura e na análise dos factos.  Lemos, por exemplo, notícias bombásticas e irresponsáveis, algumas constituindo autênticas sugestões para terroristas sobre como utilizar o material roubado. Outras, na ânsia de ir à frente dos acontecimentos, não hesitam em apontar culpados e responsáveis pelo incêndio de Pedrógão e pelas mortes na estrada 236-1.

E entre os comentadores não faltou quem  viesse citar  um “político de nível muito elevado” que lhe terá revelado que o grupo responsável pelo furto em Tancos “já estava sob suspeita” das autoridades e que estava a ser seguido para ser apanhado “em flagrante delito”.

Tudo se passa sob o manto da irresponsabilidade em que jornalistas, militares  e políticos enchem a boca dizendo que o caso é “muito grave” (o que os obrigaria a terem tento na língua) mas depois não hesitam em lançar atoardas e exigirem “responsabilidades” não cuidando de assumir as suas.

No que respeita à instituição militar é notória, e para mim inesperada, a tentativa de desresponsabilização do assalto a Tancos cuja guarda é de sua inteira responsabilidade. É mesmo chocante que um dos responsáveis pela anunciada (depois abortada) manifestação de militares para deporem as espadas  venha chamar corruptos aos políticos quando na Força Aérea se encontram detidos por suspeita de corrupção  altas patentes do ramo. Além de que é o próprio Chefe do Estado Maior do Exército a admitir colaboração interna, isto é de militares, no roubo de Tancos.

Tinha da instituição militar uma alta consideração que me vinha dos tempos da presidência Mário Soares e do contacto diário que como assessora para os media mantinha com os  militares destacados em Belém. Admirava-lhes a capacidade de organização, a lealdade, a firmeza e a seriedade. O que vejo agora são militares (embora na reserva) que acham que o CEME  suspender de funções os responsáveis pela guarda do material assaltado enquanto duram as investigações é uma afronta e por isso queriam entregar as espadas.

Os jornalistas ficaram excitadíssimos com a ideia de uma manifestação com grande coreografia, imaginavam já certamente belas imagens para passar nas televisões e nas primeiras páginas com declarações exaltadas próprias de um PREC renovado. É uma chatice para eles que, pelo menos isso, tenha falhado!

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5 respostas a Lemos notícias bombásticas e irresponsáveis, algumas constituindo-se como autênticas sugestões sobre como utilizar o material roubado. 

  1. Manuel Pernes diz:

    A incontornável cegueira decorrente da obediência canina, leva a atirar sobre os mensageiros, distraindo do essencial.
    O estado de organização das operações de Pedrogao estao expressos na resposta do PM:

    “Pedrogao Grande:
    A GNR não recebeu qualquer “decisão operacional” sobre a necessidade de encerramento da Estrada Nacional 236-1 durante o incêndio que deflagrou a 17 de junho em Pedrogão Grande, tendo encerrado esta via após a localização de vítimas mortais.”
    Será que a Ministra não retira consequências perante falhas desta natureza, da responsabilidade de forças sob a sua tutela?

  2. Manuel Pernes diz:

    Em cada uma das tragedias ( Pedrogao e Tancos ) há responsáveis a vários níveis da estruturas . Mas em cada caso há um último responsável :- o Ministro que tutela essas estruturas, que num caso como noutro , mostraram incompetência e extrema desorganização. Se o ministro não sabia dessa ausência de competência e desconhecia a falta de coordenação dos Serviços, cabe exclusivamente ao ministro assumir a responsabilidade por não não saber. De outro modo devemos perguntar : o que lá estão a fazer? Em última análise perguntem a Jorge Coelho.
    O espetáculo que a gestão de um e outro caso degradam a política, os políticos, a confiança da sociedade no Estado e a imagem desse Estado dentro e fora de portas.
    Como diria Joao dos Santos ( pedagogo, psicanalista ) : se não sabe porque pergunta?
    Poli

  3. J. Madeira diz:

    Infelizmente, essa é a realidade que temos vindo a observar, um enorme
    desconhecimento por parte de muitos profissionais da comunicação so-
    cial, se é desculpável nos estagiários deve ser sancionada nos “experien-
    tes” jornalistas seniores!
    Tem sido um martelar cansativo, sem se obter qualquer informação válida
    sobre as situações (incêndio e Tancos), as mais disparatadas acusações
    aos Ministros e a exigência de demissões … sem que se tenham apurado
    toda a factualidade nos inquéritos e investigações em curso!!!

  4. Abraham Chevrolet diz:

    O pretenso roubo de Tancos cabe numa Renault 4L !!! Grande,grande roubo foi o dos submarinos! Chegou à Alemanha e muitos alemães foram condenados! Por aqui,nada se passou!

  5. Mário Pinto diz:

    Na Mouche……..

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