Será que de futuro os partidos vão pensar duas vezes antes de fazerem eleições internas em hotéis?

O jornal electrónico Observador publicou uma reportagem a que deu o título Carrinhas, listas e cacicagem. Todos os detalhes da guerra pelo poder no PSD/Lisboa. Como o nome indica e a imagem acima mostra, o jornal usou câmaras ocultas para filmar as eleições para a distrital de Lisboa do PSD com o objectivo de denunciar “Militantes que nunca pagaram quotas e votaram sem saber em quem. Carrinhas a descarregar eleitores à porta do hotel. As tácticas dos caciques. E as manobras das fações rivais na guerra pelo PSD/Lisboa”.

O trabalho organiza-se em vários capítulos e inclui um vídeo intitulado “Como os caciques do PSD/Lisboa angariam votos” onde o director do jornal e a equipa de reportagem explicam os procedimentos adoptados, os quais incluíram instalação de câmaras no interior do hotel onde decorreu a votação –  Hotel Sana Lisboa – e no exterior, de modo a captarem as entradas e saídas de militantes através da entrada principal do hotel  e da entrada das traseiras.

Os jornalistas explicam que para acompanharem a eleição e seguirem todos os procedimentos alugaram um quarto no Sana Lisboa e noutro hotel em frente a este – Hotel Eduardo VII, acrescentando que ambos os hotéis pertencem ao  grupo Sana. Explicam também que a reportagem só agora é publicada porque foi necessário obter o contraditório e proceder à identificação de algumas pessoas  e das carrinhas que transportaram os militantes ao hotel para votarem.

Visando um objectivo de interesse público, visto tratar-se de um acto eleitoral interno num importante partido político, coloca-se a questão de saber se todos os procedimentos jornalísticos usados na reportagem são ética e deontologicamente  admissíveis.

Importa em primeiro lugar referir que sem a colaboração dos dois hotéis seria difícil, senão impossível, instalar câmaras escondidas no interior e nas janelas dos quartos. Também parece verosímil que o jornal teve colaboração de elementos da organização da eleição para instalação das câmaras e captação de imagens de dirigentes a votarem, como Passos Coelho, Morais Sarmento e Manuela Ferreira Leite. É certo que o jornal afirma que protegeu as imagens dos militantes que não são figuras públicas mas é evidente que as pessoas captadas pelas câmaras são identifcáveis por quem as conhecer.

As imagens exibidas não mostram actos aparentemente  suspeitos de irregularidades graves, nem o texto o faz.  Fala-se em “caciquismo” e em “caciques”, mostram-se os rostos e apontam-se os nomes dos supostos caciques. São identificadas as carrinhas” que transportam miltantes para votarem e identificado o proprietário.

Do ponto de vista jornalístico, a questão que esta reportagem coloca é a de saber se um procedimento tão excepcional como o uso de câmaras ocultas se justificava neste caso, isto é, se não teria sido possível “contar a história” que a reportagem conta sem o uso de câmaras ocultas. De facto, o “caciquismo” não é  algo objectivo que se possa filmar, a não ser que tivessem sido captadas conversas ou atitudes comprometedoras entre os alegados caciques, que não existem na reportagem.

Como referi aqui, o uso de câmara oculta é sempre excepcional dado que conflitua com direitos individuais – direito à privacidade, à intimidade e ao bom nome. A decisão de recurso à câmara oculta deve resultar da ponderação entre os valores em causa e os benefícios que resultarão para a sociedade e para a cidadania da divulgação da informação obtida por esse método excepcional.

A meu ver, o Observador poderia ter tratado o assunto e chegar às conclusões a que chegou sem o recurso a câmaras escondidas. De qualquer modo, é positivo que o director e a equipa tenham tido o cuidado de informar os leitores sobre os procedimentos que adoptaram na realização da reportagem.

Imagino que de futuro os partidos dificilmente escolherão os hotéis envolvidos nesta reportagem para palco de eleições internas. Mas, quem sabe, talvez o preço cobrado aos jornalistas pela cedência das instalações e das câmaras escondidas compense a perda de reputação.

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