Melhor seria que ninguém precisasse de “coragem” para “assumir” a sua verdadeira identidade. Porque é disso que se trata.

Foto Jorge Amaral/Global Notícias

Graça Fonseca, secretária de Estado da Modernização Administrativa, dá hoje no Diário de Notícias uma entrevista a Fernanda Câncio. É uma entrevista muito bem conduzida que permite a um tempo conhecer a entrevistada nas suas diversas dimensões – pessoal, intelectual, profissional, política – com perguntas inteligentes e não invasivas da sua privacidade, dando à entrevistada espaço para responder às perguntas e ir além delas. É o caso  de Graça Fonseca decidir afirmar a sua homossexualidade sem que isso lhe tenha sido directamente perguntado, antes surgindo naturalmente como parte do diálogo intenso e profundo que trava com Fernanda Câncio.

Na sua edição papel o Diário de Notícias “resistiu” à exploração da “revelação” da homossexualidade de Graça Fonseca e escolheu como chamada de primeira página uma declaração sua – A verdade é que às vezes penso porquê continuar na política” – que traduz de maneira muito mais feliz a personalidade da entrevistada, tal como podemos adivinhá-la através da entrevista, no que se refere ao desprendimento face ao poder e ao seu interesse por temas como a discriminação e a luta pela igualdade.

Em nenhum dos subtítulos e destaques da entrevista o DN salienta a afirmação da orientação sexual de Graça Fonseca que ela refere com naturalidade como parte da sua identidade, sem  tabus nem exibicionismo. O mesmo não aconteceu com  outros que se apressaram a explorar o ineditismo de uma mulher política se declarar homossexual ou a anunciarem como parte central da entrevista que Graça Fonseca assume  homossexualidade com declaração politica.

Ao declarar publicamente a sua homossexualidade Graça Fonseca espera que “se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o [seu] caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia”. Não estou certa que isso aconteça, como mostram algumas reacções surgidas nas redes sociais e concordo com Ricardo Costa quando ele escreve no Expresso online que é “uma notícia que já não devia ser notícia”. 

Talvez seja altura de deixarmos de falar em “coragem” quando políticos ou outros afirmam publicamente a sua orientação sexual e de deixarmos de afirmar que alguém como  Graça Fonseca “assumiu”  a sua homossexualidade. Porque aqui as palavras “coragem” e “assumir” estão longe de ser neutras, transportando, ao contrário, uma evidente carga de culpabilidade. Melhor seria que ninguém precisasse de “coragem” para “assumir” a sua verdadeira identidade. Porque é disso que se trata.

 

 

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Uma resposta a Melhor seria que ninguém precisasse de “coragem” para “assumir” a sua verdadeira identidade. Porque é disso que se trata.

  1. E’ estranho que a opinião expressa por Ricardo Costa e agora Estrela Serrano vão no sentido de questionar a necessidade de afirmação de quem tem uma orientação sexual que é minoritária e objecto de censura pela sociedade ou grande parte dela. Aconteceu assim – necessidade de afirmação da identidade – com todas as minorias . Ou não?

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