O relatório dos peritos sobre os icêndios e a insustentável leveza do discurso político e mediático

foto RUI DUARTE SILVA (Expresso)

O relatório da Comissão Independente sobre os incêndios ocorridos em Junho passado é um documento de grande qualidade, profundidade e rigor. Como todos os relatórios científicos necessita de ser lido com atenção e tempo, não se compadecendo com leituras  em diagonal como as que foram feitas pelo PSD e pelo CDS que o comentaram pouco tempo depois de ser publicado.

O relatório obedece a uma metodologia rigorosa e possui um índice detalhado que orienta e facilita a sua leitura, sendo antecedido por um sumário executivo cuja leitura bastou a  alguns políticos e comentadores para se sentirem habilitados a sobre ele ditarem sentenças.

Do lado dos media, salvo raras excepções, o relatório foi divulgado através de excertos quase sempre descontextualizados  destinados a provar a  tese de cada  sobre as responsabilidades da tragédia de Pedrógão.

Ora, o relatório merece ser analisado para além da procura de culpados  porque ele mostra à exaustão que eles são  em primeiro lugar os presidentes e os governos que ao longo dos anos não foram capazes nem de identificar os problemas com a profundidade com que este relatório o faz nem, muito menos, encontrar e aplicar as soluções que se impunham.

Para os partidos da oposição e para alguns jornalistas parece que a consequência mais importante, quiçá a única que lhes interessa, é a demissão da ministra, como se o resto – o deficit de conhecimento, a qualificação e fixação de perfis profissionais adequados às diversas funções – fossem questões acessórias.

Sem prejuízo das falhas humanas apontadas no relatório, o incêndio de Pedrogão Grande é, segundo os peritos, “um exemplo e um aviso de como os sistemas atuais de combate a incêndios não estão preparados para enfrentar um novo problema com raiz nas alterações climáticas. Este incêndio tornou esse problema evidente, pelo que urge entender o fenómeno e adaptar as estruturas de proteção civil para adquirir capacidade de antecipação e planeamento face ao mesmo (…) .” (pág. 12)

Sobre a morte das 64 vítimas o relatório afirma: “não existem evidências que permitam associar as mortes ocorridas em espaço aberto ou dentro de viaturas, ao não cumprimento de medidas de gestão de combustíveis [limpeza do terreno].  (…) as condições extremas de propagação do fogo que se verificaram nos locais e nos momentos das ocorrências fatais, provavelmente ter-se-iam verificado de qualquer forma, independentemente dos trabalhos de gestão junto a infraestruturas.  (…).”(pág. 94)

Na entrevista que dá ao Expresso deste sábado, o presidente da Comissão Independente, confirma que o incêndio de Pedrógão foi “uma conjugação de falhas humanas e de fenómenos naturais que aproveitaram essas falhas“, acresentando que “no limite, o Estado é o responsável por tudo“.

O primeiro-ministro tem neste relatório argumentos poderosos para remodelar de alto a baixo todo o sistema de prevenção e combate aos incêndios, sem esquecer o papel da formação dos recursos humanos, abrangendo operacionais e chefias de bombeiros, técnicos florestais, protecção civil,  serviços meteorológicos e sensibilização dos cidadãos – mobilizando universidades e politécnicos na criação de programas que incorporem o conhecimento adquirido e correspondam às exigências colocadas pelas alterações climatéricas. Demitir ou não a ministra é irrelevante face à magnitude das decisões a tomar.

 

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