Um primeiro-ministro tem de ser emotivo e beijoqueiro?

A pergunta é retórica mas impõe-se face à valorização que o PSD, o CDS, os jornalistas e os comentadores fizerem e fazem do estilo “afectivo” do Presidente Marcelo e do modo mais “frio” e racional com que António Costa encara e age na actividade política.

Costa foi quase “crucificado” por jornalistas, políticos e comentadores por na conferência de imprensa seguinte às mortes nos incêndios deste fim de semana não ter “pedido desculpas” e não ter  mostrado emoção e sentimento. As críticas agudizaram-se após a intervenção do Presidente que, como é próprio das suas intervenções públicas, falou ao País com palavras carregadas de emoção. Costa tem uma mente racional e não tem jeito para “a conversa” de que o povo gosta e de que precisa nesta altura. Como notou Ferreira Fernandes no DN: “os políticos de todos os partidos deveriam saber que o mais importante que ontem foi dito [por Marcelo] não foram as frases. Foi a conversa. Foi ela que deu poder ao que foi dito.”

No debate desta tarde, o “pedido de desculpas” mobilizou o discurso e as críticas do PSD e do CDS. Perante a insistência da crítica,  Costa respondeu a Hugo Soares do PSD: “Se me quer ouvir pedir desculpas, eu peço desculpa”, explicando depois que reserva a palavra  “desculpas” para a sua vida privada. Como primeiro-ministro  usa a palavra “responsabilidade” e como cidadão pede desculpa. Nos comentários televisivos que se seguiram ao debate Costa foi “reabilitado “pelos comentadores por ter “pedido desculpas”.

E, no entanto, António Costa tem razão na sua racionalidade. O papel de um primeiro-ministro é agir com prontidão e eficácia sem, naturalmente, desvalorizar o sofrimento de quem perdeu entes queridos e bens, coisa que Costa e o seu governo não podem ser acusados de fazer. É através da acção e das decisões que se impõem que se minora o sofrimento das pessoas que perderam tudo. Um primeiro-ministro não tem de ser emotivo e beijoqueiro.

Marcelo fez um discurso duro, também ele pressionado pela vox populis, começando por falar ao coração do povo e acabando com um quase ultimato ao governo. Mas não foi apenas isso. Foi também um recado certeiro à direita: se quer mudar o governo, diga-o no Parlamento e para isso tem a moção de censura que Assunção Cristas lhe dá de bandeja. Para o Presidente, se a moção for rejeitada acabam-se “os equívocos” sobre a legitimidade do governo para realizar as reformas que a Comissão Independente recomenda no seu relatório.

Diz-me a  intuição que ao contrário da opinião da maioria dos comentadores, António Costa não foi surpreendido pelo discurso do Presidente. Seria estranho que a lealdade institucional não tivesse funcionado e que o Presidente não tivesse informado o primeiro-ministro sobre o teor desse discurso. É que Marcelo não iria arriscar ficar com uma crise política na mão se, sentindo a lealdade institucional quebrada, Costa lhe apresentasse hoje o pedido de demissão do Governo. Esperaria Marcelo pelo novo líder do PSD para marcar eleições? ou voltaria a convidar Costa?

São insondáveis os desígnios do Presidente dos afectos. Será que o tempo do guarda-chuva passou?

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